sexta-feira, 17 de junho de 2022

O DESENCANTAMENTO DAS RUAS



Por Eduardo Alves




Nas ruas não há almas encantadoras 

Nas ruas, com ou sem a luz só há medo 

Nas ruas as almas encantadoras 

Suspiravam o sopro da liberdade!

As ruas hoje, com o medo presente, 

Suspiram o sopro do medo 

A inversão das ruas não se faz pelo vento 

A inversão das ruas é feita pelas pessoas 

Não são todas as pessoas 

Mas é um punhadinho de pessoas 

Com poder para impor o medo na multidão 

Basta quem compre para matar 

Basta quem tenha o que pagar pela morte 

E onde não há como se empregar, 

Haverá também quem se emprega para desencantar 

O suspiro que vem em sopro sórdido 

Tiram a vida sem trégua de Dom e do Indigenista!

Basta ser pessoa reconhecida na gira da justiça 

Para os poucos seres existentes na sórdida força do lucro,

Arrancar a vida e forçar a morte 

A morte é forçada no corpo, na alma, nos sonhos 

A alma da rua assim só tira o encantamento que podemos conquistar 

Vamos fazer valer a vida e fazer o encantamento predominar. 


Ilustração: Cristóvão Villela

domingo, 1 de maio de 2022

PaviANOS

Por Camilla Silva



1 ano

Chama reacendendo...

Como fogos de artifício num ano que se inicia!

Pra nós ARTEfício...

Magia

Força 

Inspiração 

Amor

Movimento 

Afeto 

Militância 

AMIZADE

Às vezes labaredas 

Às vezes chama

Que chama!

Às vezes o Pavio era Curto 

Tudo isso junto!

 E vira poesia! 

POESIA!

TransformAÇÃO!

1 ano...

Quanta história...

Riso

Choro

Abrigo

Afago

Partida

Pares

E cá estamos parindo novamente essa chama que nunca apagou...

Porque vem da alma!

1 ano...

E só estamos começando!

Século XXI


Por Fabíola Rodrigues


É a mesma seca no sertão

É a mesma sujeira na eleição

Qual foi a verdadeira evolução?


Não há cura...


É a mesma desnutrição

Mesma falta de educação

Ainda a mesma situação


Não há cura...


Nos homens igual ambição

Pelas ruas mais poluição

Ainda não há solução


E não há cura. 

Refugiados do Medo

Por Fabíola Rodrigues



Olha o céu vermelho

A noite de um sonho mal pensado

A grande névoa escura nos envolve

Corpos esfacelados.


Caminho só entre o chão

Que se move com medo

O chão gelado vermelho

A voz pálida cansada

E não sai,

Se arrasta calada.


Segure a mão fria

Do lado um pulso estático

Um olhar de espelho que não será mais quebrado,

A dor do vazio máximo.


Não corra, não há chegada,

Nem prêmio, talvez a vida.

Sua mente agora carrega

Não lembranças, mais feridas

Que não poderão ser curadas.

Receita à brasileira

Por Fabíola Rodrigues


Doce petrificação da humanidade

Estabilidade em calda,

E a todos agrada

E traz felicidade.


Que Paladar estranho

Tem o povo brasileiro!

Perdeu olhar faceiro,

Dá a cara a tapa

Para ser hospitaleiro.


Que prova amarga

Para nossa juventude!

Barulho por nada

E em tudo quietude.


A que ponto nós chegamos,

Para ser dessa forma Enrolados,

E de falsas esperanças salpicados?


Em compota ou em fôrma nos informa untados de hipocrisia.

Nesta década pré-aquecida de melancolia.

Voa longo, Pavio Curto!

Por Alvaro Britto



“O pensamento parece uma coisa à toa 

Mas como a gente voa quando começa a pensar”

Lupicínio Rodrigues



31 de março ou 1º de abril?  Triste memória da história do Brasil

Para o Pavio Curto, protesto mas também um dia de recomeço

Mas ele não renasceu das cinzas

20 anos depois, a chama do Pavio nunca se apagou 


Deixou lembranças que permaneceram acesas

Dom Waldir em entrevista explosiva, quem esquece?

Henfil, nosso primeiro patrono, detonando geral

E sempre que havia uma centelha de esperança, eles tentaram alimentá-la

Clovis, Cristóvão, Cacinho, Alvaro...


No início de 2021, o reencontro: a chama continua acesa e forte! 

O Brasil vivendo um momento de escuridão

Precisamos incendiar essa realidade e trazer de volta a luz da esperança

Novas fagulhas nos iluminam o caminho

Abdias, Juruna, Chico Mendes, Irmã Dorothy, Margarida Alves, Marielle, Olga, Zuzu...

E Paulo Freire, às vésperas do seu aniversário de cem anos


Mídias e plataformas digitais, reuniões virtuais, redes sociais...

Novas ferramentas mas usadas sempre pra detonar o capitalismo

O Pavio quer incendiar o planeta de vida, amor, justiça, liberdade e diversidade...


Diversidade!! Era preciso trazê-la para dentro desse incêndio coletivo 

Novas pautas, temáticas, conteúdos...mas faltava quem detonasse

Novas acendedoras logo botaram fogo no parquinho

Feminismos, luta antirracista, defesa dos povos indígenas, combate à LGBTfobia...

Tudo sempre iluminado pela construção coletiva e protagonismo dos oprimidos e explorados


Abril de 2022: um ano depois do recomeço

Novas acendedoras, novos projetos, sonhos renovados

Pandemia e inominável partindo...essa a nossa esperança e luta


Houve momentos em que a luz pareceu perder brilho, a chama ameaçou apagar, o detonador falhou...

Mas a centelha do Pavio permanece acesa nos nossos corações e sonhos

E “a gente voa quando começa a pensar” e iluminar novos caminhos!

E continuamos detonando!

Vida longa ao Pavio Curto!!


Ilustração: Cacinho

Outono e o vento

Por Ju kerexu


Somos ventos que rasgam os dias e trazem as falas em silêncio do outono...

Ventos vão aonde precisa, buscando cada fresta, cada queda de penhasco para ganhar mais velocidade...

Eles vêm com mais profundidade nos tempos que muito se tem a dizer...

No outono tudo perde sua cor, tudo se ganha cor, depende do ponto de vista de cada olhar...

Ah olhares, e como se pudéssemos buscar e buscar sem sair do lugar, "mas, está ali" - dizia minha mãe, - "olhe com o olhar da alma para enxergar o que está ali..."

Oh meu querido vento, o senhor que tudo sente e tudo vê, à distância ou de perto, queria ser tu! - dizia eu, quando sentindo em minha face sua chegada...

Sentar numa pedra e fechar os olhos, e dar boas-vindas ao vento que dá o frescor da senhora sábia que é o outono, sábia, pois ela é o momento que as árvores esperam para saber a hora certa para deixar cair suas filhas...

Suas amadas folhas, mesmo amando-as, as deixa cair, se deixa ser acariciada pela senhora sábia, assim sabe que o tempo é quem cura, o tempo vai dar de novo as folhas novas no lugar daquelas que se foram, e assim continuar sua vida, que é nascer, crescer, florescer e dar frutos....

Fincar com mais força suas raízes no chão sagrado, pois sabe que são os ventos que vêm trazendo a senhora sábia e forte...

Finque com força suas raízes neste chão, não deixe o medo de soltar suas folhas secas lhe deixar de sentir os ventos das mudanças passar...

Deixemos o vento entrar em nossas frestas para acalentar, para soprar nossos corações e refrescar nossa alma...

Deixemos a sabedoria do tempo nos ascender, soprar, levar..., nos dizer o que ela tem a nos contar sobre nós...

Descalça, sentada, numa pedra, deixo que a senhora sábia me diga em silêncio sobre meu existir nesta imensa jornada, que é o saber soltar, saber deixar que as feridas cicatrizem com o sopro do tempo...

Deixem vir, deixem ir, deixem transpassar, deixem chegar, não deixem nunca de se deixar curar...

Olhares, abraços em silêncio

De Ju kerexu


Me salva uma conversa...

Um papo sem pensar em nada, apenas risos...

Risos salvam meu dia...

Amor próprio me mantém erguida, amor pela vida me abraça com mais força quando escuto o silêncio...

O silêncio me diz o quanto sou forte, o silêncio me ensina a amar a mim mesma...

Os dias de sol me vêm e ensinam o quanto é lindo e a essência do ser mulher, e raios de Sol se espalham através do olhar radiante que carrego nas profundezas da minha alma, o acalento do amor a existir em mim...

Existência salve, salva, saúda o amor..., por existir na esperança do amor...

Olhares, abraços, colo, sorrisos, salva, salve, saúda o amor ao ser forte, ser mulher, mulheres, amor infinito do poder de amar mais que a si mesma...

Olhe, procure, busque, saúde a vida, salve, salva com amor...

Acolhida, acorde, acolher, aconcheguei, acolha...

Saudar a vida, salve, salva de palmas à vida...

Saudades, saúde, sair, sal do mar...

Saudades de simplesmente rir, saúde física, especialmente mental nesses dias de profunda escuridão, sair para observar o vento que traz o outono com sua brisa leve e fria, que me traz arrepios bons, sal do mar para renovar minha esperança, para salgar meus pensamentos que andam meio sem sal...

Saltar para o outro lado do rio, salve seu caboclo, saudar oh senhor Sol, salve meus ancestrais, salve minha mãe, saúdo minhas mães, salve mulheres!!

Busque paz no caos, ame mesmo que digam que não exista mais amor, tenha esperança mesmo que o mundo diga o contrário...

Seja paz, seja amor, seja esperança, seja sempre você, se olhe, se acolha, se ame...

Olhares, abraços, abraços em silêncio me mostra o amor, esperança que ali existe, a existência no existir a vida... 

sábado, 19 de março de 2022

Voa sem ter asas

Por Fabiola Rodrigues

 


O tempo é todo e tudo

eu o espero, ele me avança

eu corro, ele é mais rápido

e voa sem ter asas.

 

Eu sofro, ele ávido

nem sente, só passa

eu caio, ele não se toca

o pêndulo bate, eu bato à porta.

 

Ele me esquece, e segue

eu continuo, e o relembro

mas nada só o tempo.

 

Ele contínuo, frio

eu um dia imóvel,

e ele interminável.

 

Imaginário

Por Fabíola Rodrigues

 

Sinta o amor, a alegria

a saudade, felicidade

mas nada é sentido,

nada é tocado...

...ilusão de óptica

o que se toca,

ilusão de tato.

 

Vivemos iludidos

porque a vida é uma ilusão

na verdade, não existimos

alucinação...

 

Somos ilusão coletiva

ilusão sendo iludida

não existe a esperança

ela também não passa de ilusão.

 

Estas palavras também

iludem, pois poderia

dizer tudo o que foi dito

em uma simples linha,

mas não o fiz.

Porque penso ser poeta.




 

 

 

Ampulheta

Por Fabíola Rodrigues

 

O tempo é areia branda

que esvazia-me em contento

que passa e arrasta, como vento

e nem a morte espanta.

 

E assim é que se lança

maldito badalar de tempo

que não se cansa em lamento

e espera a solidão que avança.

 

Então me abrace,  desesperança

enquanto passam as horas

eu me seguro às lembranças.

 

Que o relógio bata agora

a areia me enterre mansa

últimos grãos de esperança.




 

 

domingo, 13 de março de 2022

De cada gota de lágrimas floresce as flores

 Por  Ju kerexu

  


Chore, chorem, choremos, deixemos que as gotas de lágrimas caiam no colo da mãe Terra...

 

A mãe Terra transforma cada gota de lágrimas em uma flor de grandes árvores que se transformam em sementes...

 

Todas as lágrimas são sagradas, alegria, felicidade, gratidão, e também, as de tristeza, pois somos seres viventes a viver o mundo...

 

O mundo cheio de maravilhas e também tristezas...

 

Vivermos plenamente requer um esforço a mais, o plenamente do existir requer sabedoria, de olhar o mundo com os olhos marejados de lágrimas, mas com um sorriso na face...

 

Não se apegue as lágrimas, pois elas foram feitas para nos ajudar a expor e expressar os mais sublimes dos sentimentos: amor, empatia, gratidão...

 

Chore, chorem, choremos, com  a certeza de que as lágrimas são pequenas pílulas de calmaria...

 

Nem todas as lágrimas são ruins - dizia "minha vó", pois elas nos libertam... Chore com esperança no coração, pois a lágrima vai se transformar numa flor, que se transforma em floresta....

 

Deixemos cair no chão as lágrimas, para se transformar em flores e florestas, para voltarmos para casa...

Corpos transpassados pelo amor

De Ju kerexu


Corpos que por muito e muito tempo foram vistos sem rostos, sem o coração...

Corpos de mulheres transpassados pelo amor e que deram a possibilidade de existir o mundo através do seu corpo, útero...

Mulheres deixem essa força lhes atravessar, e assim, nunca esquecermos que nossa história não foi nos dada e sim nos ensinada...

Ensinada a lutar todos os dias pelos sonhos que ali ou lá estavam a nos esperar...

Através do corpo da mulher se construiu uma sociedade que hoje se orgulha do seu machismo em enfrentar o mundo...

Se deixem transpassar por essa força que vem da ancestralidade, nós mulheres temos o segredo para a sobrevivência do mundo...

A sobrevivência através do amor, força e esperança...

Mulheres deixem abrir seu corpos para iluminar esse mundo que está na escuridão...

Nunca deixem de acreditar na sua força, somos filhas, netas, das mulheres que não foram dominadas, que foram temidas por sua magia, sua sabedoria de CURA...

Mulheres, somos a CURA, somos força, somos a sabedoria, somos o amor em sua mais sublime definição...

Deixem transpassar para transbordar sua luz...

Deixem se iluminar para iluminar...

Sua luz é sua, seu amor é seu, sua força é sua, a magia é sua, a ancestralidade é sua...

Se olhe, se ame, se fortaleça; se abraçar para abraçar o mundo...

Mulheres, seu corpo carrega a sua história, a nossa história, a nossa ancestralidade...

Mulheres o corpo sagrado!!! 



quarta-feira, 10 de novembro de 2021


No mês da Consciência Negra, Eduardo Alves escreveu e musicou esse lindo poema, com arranjo e interpretação de Tiago Norato. 
Edição do Cacinho.

Clique na imagem para assistir. Curtam o vídeo e inscrevam-se no canal!

terça-feira, 9 de novembro de 2021

Conhecimentos

 



Por Eduardo Alves*

Os conhecimentos não estão nos ventos

Não deixe os ventos passarem

Sem agarrar conhecimentos

Hoje a mistura fez luz acesa e apagada

O que foi veio na veia

No coração chegou o passado

Verdade, arte, carinho 

Por toda parte o M se fez

Marighella, Mário, Maria

O M abraçou a diversidade

Criação com Ciência e Arte

A diferença trouxe igualdade

A multidiversidade inspirou a liberdade

Assim se fez o dia

Na síntese valiosa da vida

Mais uma vez o trabalho foi criação

Ciência, verdade, antepassados e o pão

Superando a fome com os pés no chão

O trabalho se forjou na arte criativa

Beba também da potência com criatividade


*Poeta, cientista social pela UFRJ, cursou Ciências Econômicas, na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro - UFRRJ. Com 16 anos, Eduardo já era secretário de juventude do Partido dos Trabalhadores - PT. Posteriormente, atuou como secretário de formação política do partido, junto aos diretórios municipal, estadual e nacional, sendo também da secretaria nacional. Foi da Teologia da Libertação e atuou na Juventude Operária Católica e em Pastorais. Em Brasília, foi assessor do Sindicato do Servidores Públicos Federais - SINDSEP-DF, por dois anos, e assessor da Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Federal - CONDSEF, por onze anos. Foi assessor do vereador Adilson Pires em seu primeiro mandato no Rio de Janeiro e foi chefe de gabinete do deputado estadual Marcelo Freixo, por seis anos. Foi coordenador da Escola Popular de Comunicação Crítica - ESPOCC e, nos tempos de produção destes ensaios, foi diretor do Observatório de Favelas, situado no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, atuando no Instituto Maria e João Aleixo - IMJA. Atualmente, Eduardo é coordenador pedagógico do projeto de formação política do Instituto Pensamentos e Ações para a Democracia - IPAD.



segunda-feira, 8 de novembro de 2021

POEMAS DE CARLOS MARIGHELLA


Rondó da Liberdade 

 

É preciso não ter medo,

é preciso ter a coragem de dizer.

Há os que têm vocação para escravo,

mas há os escravos que revoltam contra a escravidão.

Não ficar de joelhos,

que não é racional renunciar a ser livre.

Mesmo os escravos por vocação

devem ser obrigados a ser livres,

quando as algemas forem quebradas.

É preciso não ter medo,

é preciso ter a coragem de dizer.

O homem deve ser livre…

O amor é que não se detém ante nenhum obstáculo,

e pode mesmo existir até quando não se é livre.

E no entanto ele é em si mesmo

a expressão mais elevada do que houver de mais livre

em todas as gamas do humano sentimento.

É preciso não ter medo,

é preciso ter a coragem de dizer.


Canto para Atabaque

Ei bum!

Qui bum-rum!

Qui bum-rum!

Bum! Bumba!

Ei lu!

Qui lu-lu!

Qui lu-lu!

Lumumba!

Ei Brasil!

Ei bumba meu-boi!

“Mansu, manseba,

traz a navalheta

pra fazer a barba

deste maganeta.”

Lá vem beberrão,

lá vem Bastião,

tocando bexiga

em tudo que é gente.

O engenheiro medindo,

empata-samba empatando,

cavalo-marinho

dançando, dançando.

O boi requebrando,

o boi ‘stá morrendo,

o boi levantando,,,

Ei Brasil-africano!

Minha avó era nega haussá,

ela veio foi da África,

num navio negreiro.

Meu pai veio foi da Itália,

operário imigrante.

O Brasil é mestiço,

mistura de índio, de negro, de branco.

Bum! Qui bum-rum! Qui bum-rum! Bum-bum!

Quem fez o Brasil

foi trabalho de negro,

de escravo, de escrava,

com banzo, sem banzo,

mas lá na senzala,

o filão do Brasil

veio de lá foi da África.

Ei bum!

Qui bum-rum!

Qui bum-rum!

Bum! Bumba!

Ei lu!

Qui lu-lu!

Qui lu-lu!

Lumumba!

 

Canto da Terra

 

A terra tem tudo

e plantando é que dá.

E plantaram e plantaram

ou já estava plantado.

A floresta amazônica,

o rio e os peixes

e o balacubau.

A caatinga existia

com a braúna,

o mandacaru

e o gravatá cariango.

As coxilhas do Sul,

o maciço do Atlântico,

a Serra do Mar,

os pinheiros erguidos,

o rio Amazonas,

o rio São Francisco,

o rio Paraná…

Canaviais assobiando,

cortina verde estendida

sobre imensa extensão.

E plantaram café

e cacau e borracha…

E plantaram erva-mate…

Com o escravo e o imigrante

tudo se fez.

Comidas meu santo,

a mulata, a morena…

e até a loura surgiu.

A índia já havia,

a gringa veio depois.

Quem atrapalhou

foi gente de fora

que não trabalhou.

Eu canto a terra…

Todos sabem que outra

mais garrida não há…

“Teus risonhos, lindos campos têm mais flores”…

Bom! Lírios já houve,

mas agora é que não.

Eu canto a terra,

eu canto o povo…

Cantam os poetas

e cantando vão…

 

Liberdade

Não ficarei tão só no campo da arte,

e,  ânimo firme, sobranceiro e forte,

tudo farei por ti para exaltar-te,

serenamente, alheio à própria sorte.

Para que eu possa um dia contemplar-te

dominadora, em férvido transporte,

direi que és bela e pura em toda parte,

por maior risco em que essa audácia importe.

Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma,

que não exista força humana alguma

que esta paixão embriagadora dome.

E que eu por ti, se torturado for,

possa feliz, indiferente à dor,

morrer sorrindo a murmurar teu nome.


A Alegria do Povo

Uma grande jogada

pela ponta direita,

o balão de couro

como que preso no pé.

Um drible impossível…

Garrincha sai por uma lado,

e o adversário se estatela no chão.

Gargalhada geral,

o Maracanã estremece…

Lá vai o ponta seguindo,

os holofotes varrendo de luz o gramado,

o balão branco rolando,

seguro nos pés do endiabrado atacante.

Voa Garrincha,

invade a área contrária,

indo até à linha de fundo

para cruzar…

E as redes balançam,

no delírio do gol.

Garrincha! Garrincha!

A alegria do povo,

no balé estonteante

do futebol brasileiro.

 

Capoeira

Capoeira quem te mandou,

capoeira, foi teu padrinho.

O berimbau retinindo

na corda retesa,

cadência marcada

da ginga do jogo.

Zum, zum, zum,

capoeira mata um.

A perna direita

lançada pra frente,

o peso do corpo equilibrado na esquerda,

os braços jogando

de um lado pro outro…

Capoeira quem te ensinou?

De repente uma queda,

o capoeira na terra,

o aú,

de cabeça pra baixo,

as pernas no ar,

a rasteira varrendo

como foice no chão,

o corta-capim, o rabo-de-arraia,

e o inimigo caindo

de supetão,

ao puxavante

da baianada.

Luta africana

que o mestiço encampou,

que os guerreiros da mata,

quilombos, palmares,

souberam jogar.

Que o angolano nos trouxe,

que o mestre Pastinha nos soube ensinar.

Coreografia. Jongo do povo.

Zum, zum, zum

capoeira mata um.

 

O país de uma nota só

Não pretendo nada,

nem flores, louvores, triunfos.

nada de nada.

Somente um protesto,

uma brecha no muro,

e fazer ecoar,

com voz surda que seja,

e sem outro valor,

o que se esconde no peito,

no fundo da alma

de milhões de sufocados.

Algo por onde possa filtrar o pensamento,

a ideia que puseram no cárcere.

A passagem subiu,

o leite acabou,

a criança morreu,

a carne sumiu,

o IPM prendeu,

o DOPS torturou,

o deputado cedeu,

a linha dura vetou,

a censura proibiu,

o governo entregou,

o desemprego cresceu,

a carestia aumentou,

o Nordeste encolheu,

o país resvalou.

Tudo dó,

tudo dó,

tudo dó…

E em todo o país

repercute o tom

de uma nota só…

de uma nota só…

 

A Vaga

De manso surge a vaga.

Vem de leve de uma ruga do mar que o vento ensaia

impelir e rolar. E rola e em breve

numa auréola de espumas cinge a praia.

E é majestosa e bela quer se eleve

expandindo-se toda ou se contraia,

erga-se em cristas brancas como a neve

ou rebramando escachoante caia.

Tal como a vaga é o meu amor por ti

férvido, impetuoso — o que eu senti

no coração com mais ardor vibrar.

Amor que de meus versos dentre a espuma

borbulha e se agiganta e se avoluma

como a vaga rolando sobre o mar.

 

Urubu

Pairando pelo espaço onde quer que pressinta

carniça, podridão, matéria decomposta

essa ave original de cor preta retinta

o cheiro da imundice alegremente arrosta.

Vem descendo depois. Já não é uma pinta

escura na amplidão do firmamento exposta.

Vem descendo inda mais, cada vez mais distinta,

até que no terreno o corpo feio encosta.

Desde então principia a ceia horripilante

e belisca a esterqueira e grunhe a cada instante,

sacudindo-se toda, inquieta e assustadiça

Assim como o urubu há no alto muita gente

poderosa a fartar que, entanto, moralmente

só consegue viver à custa de carniça

 

Confraternização

Braços caídos

Não mais as mãos nervosas das tecelãs

tocando os

teares,

pondo emendas no fio

não mais o matraquear dos teares

batendo

num barulho monótono, ensurdecedor

Apenas braços caídos,

As operárias pensando nos filhos

com fome

Depois vieram os soldados,

Fuzis embalados,

Defender a propriedade do dono da

fábrica

Mas também tinham filhos,

Mães, noivas, irmãs

A fome era a mesma nos seus lares

também

E as tecelãs os saudaram chamando-os de irmãos

Agora na fábrica há braços erguidos

Aclamando

E há mãos se apertando

 

Balada à descritiva

Morra, meu Deus, a Descritiva,

esta matéria sem valor,

que, à tarde, é coisa intempestiva

assunto ouvir tão maçador.

Na sala B, fornalha viva,

que mal me faz estar presente!

Concede, ó Deus, que a Descritiva

um dia morra de repente.

Que disciplina tão nociva!

Como na sala faz calor!

Calor gostoso que incentiva

a um sono bom, reparador.

Morra, Jesus, a Descritiva

acompanhada da tangente,

da Geometria Projetiva

e o mais que amola n’aula a gente.

O sala B, a perspectiva

do teu contorno causa horror,

queima, Senhor, a Descritiva,

joga-a no lixo por favor.

Horas de dor, tarde aflitiva,

a ver traçar linhas de frente,

cousa que a breve trecho aviva

em mim o tédio e a raiva ardente.

Morra de vez a Descritiva,

que a sua perda ninguém sente.

Mas se a “bichona” ficar viva,

morra eu então, subitamente.

 

Fernando de Noronha

Fernando de Noronha. Arquipélago. Ilha.

Plantada no mar

como um pedaço de carvão boiando nas águas do Atlântico.

O Pico se elevando como o Pão de Açúcar,

o Espinhaço do Cavalo,

o Morro dos Remédios com o Forte no alto,

e na Praça dos Remédios a igrejinha caiada.

A vegetação rastejante, quase à flor do terreno,

o mata-pasto e a burra-leiteira,

de cujos talos quebrados

goteja um leite cáustico, violento,

que queima os olhos e provoca cegueira.

E o cabo-de-raposa e as cactáceas

que infestam o solo com os espinhos remosos.

E lá para o Sul, para a Sapata espalmada,

a pequena floresta de árvores linheiras,

sugadas de parasitas, os cipós pendurados,

com as pontas tocando no chão escaldante.

E os mulungus e as bananeiras de folhas ao vento,

subindo as encostas escarpadas do Pico.

Os cajueiros carregados de frutos vermelhos,

mamoeiros, pinhais e coqueiros

de palmas verdes tremulando sobre o branco das praias.

A praia do Cachorro, que o mar esburaca,

carregando a areia para a praia vizinha,

Santo Antônio chamada,

onde as balsas aportam para carga e descarga.

Fernando de Noronha,

com seus peixes e pássaros.

A guarajuba, a cioba, o cangulo,

a venenosa urubaiana e a albacora do alto-mar.

O mumbebo que mergulha para fisgar a sardinda,

e o alcatraz que a arrebata às bicadas ao mumbebo.

Ilha sem rios, com águas amargas

arrancadas às entranhas da terra

em poços profundos e cacimbas famosas

– Cacimba de Mulungu, Cacimba do Padre.

Fernando de Noronha com suas lendas ingênuas

– a lenda da Alamoa,

os amores proibidos no Açude do Gato,

as estórias dos bigodetes,

as vinganças dos presos traídos no amor,

as mãos dos sedutores amputadas a golpes de foice.

As estórias de fugas,

fugitivos tragados por vorazes tubarões…

E os prisioneiros seminus,

sob o sol abrasante,

carregando o munício

vergados ao peso de caixas enormes.

 

O perfume

Para cada mulher existe sempre um perfume

que agrada ao seu gosto

ou ao desejo que a inspira,

e que lhe é revelado pelo dom do instinto.

Cada mulher traz em si,

entranhado em seu corpo,

um perfume.

A cada espécie de amor

um perfume é mister,

seja amor puro,

infiel,

sacrossanto,

carnal.

Há uma busca eterna à mulher …

E quem sabe essa busca

se resume

na procura de um quê,

algo estranho, insondável,

quem sabe um perfume.

 

Fontes: livroecafe.com; xapuri.info; geledes.org.br; revistaprosaversoearte.com