domingo, 2 de abril de 2023

Por Daniela Magalhães

 


Difícil escrever às moscas

Sem chão sem bicho

Na lerdeza intermitente da luz que não se sente bem vinda.

No espelho único a ferida também insistente

De aluno

Mesmo tão esclarecido

Prefere o riso tardio da interação com as moscas

que piora no fim da tarde.

E o vizinho de um porre de ritmo esquecido.

E a vizinha de fogo, perigo dos espaços vazios.

E a mãe que mata os filhos. 13 ao todo.

As crianças cachorros em pedra e seus donos de pedra

Caras certeiras e imóveis.

 

Me faltam tantos óleos quanto a fonte desregrada inundante.

E o ar traz a vontade lá de longe quando o silencio não mais afoga.

Por falta de permissão das moscas.

Nos abandonaram as lagartixas e os rastros

Do invisível vizinho que nada na própria morte.


Ilustração: Cacinho

sábado, 1 de abril de 2023

Respostas ao Thiago

Por Daniela Magalhães



Focava na casta arrasada

De fada e de luz

Focava na farda

Até entre o pus

Mas tarda

Mas tarda

A tarde sem farda

Sem fada

Não basta o tempo do espírito?

Ou a cola dos números?


A carta um dia chegava

Nunca mais

A porta um dia quebrava

A chave um dia sumia

Continua la

A grade um dia cedia

Nunca vi tão forte

Já achei mais frias

A tarde

Essa sempre chega


Acordo meio que

Tropeço

Me enrolo no sol

Quando tem

Deixo cair

Que que eu to fazendo?

Pra onde vou

Tropeço

Ainda acordo meio que

Me esqueço no sol

Quando tem

Deixo cair mas não caio

Faz tempo

Tem que comer

Pra onde to indo mesmo?

Tem que comer

Me aqueço

Nem sempre danço

Pra quê?

Pra onde mesmo que eu to indo?

E olha que eu nem me perco

Já acordei

Meio que

Hoje não tem sol




* Dani Magalhães é nova acendedora do Pavio Curto. Circula na Região das Agullhas Negras/RJ e é coreógrafa, bailarina, baterista e poetisa.

Bem-vinda!!


Ilustração: Cristóvao Villela

Foto: Arquivo Pessoal


Homo céticos

Por Fabiola Rodrigues



Sons de armas explodem

Domínios de novas civilizações

Tendências caóticas homicidas

Gerenciadas por multidões


Decadências de almas que se atiram

Nas funções vagas do governo

Que instinto insiste em existir

Sem ouvir do povo o seu apelo


Mudanças no sistema e nas convenções

Segmentos sem guia ou visões

Novos conceitos para os pré-estabelecidos


Que serão criados pelos esclarecidos

Que desenvolvem notícias sem intenções

E armam guerras nas televisões  


Ilustração: Cristóvão Villela

As Folhas e o Vento

De Ju kerexu


Ando por lugares, que são guiados por meus ancestrais...


Sol, folha que desprendeu da árvore ancestral...


Sol, levada pelo sopro da sábia xejaryi (avó) que é o vento...


Sopros que me encorajam, que me levam sem perceber a lugares, nos espaços que em sonhos teria sonhado...


Somos feitos de sonhos, amores, pessoas que nos cercam, famílias, deixemos que os ventos nos atravessem, para dizer em sussurros os caminhos...


As folhas são nossos sonhos, deixem ele ser levado por nossa sábia velha senhora, para que ela possa colocar no seu devido lugar, que muitas vezes ficamos presos a elas...


É só deixar ir, nunca estará sozinha, o vento estará conduzindo...


Somos filhas e filhos do vento, somos folhas ao vento, somos sussurros de sabedorias guiadas pelos ancestrais...


Deixem soprar!


Ilustração: Cacinho

Por Daniela Magalhães


Procurei colchão largo

Pro meu campo de batalha

Encontrei no fio da saia


E o estrago da cabeça d'água

Achei, mas nunca vi


Me perdi no céu 

do trilho a nado

Água que não acaba

Entrando em verde amargo


E o estrago da jararaca

Eu vi, mas não bebi


Muito bonita, por acaso...

Somos todas Elas

De Ju Kerexu 

   

Sejamos como elas...

Sejamos Mulheres...

O mundo la pacha mama eres tu...

Somos nossas a vós, nossas bisavós, nossas mães...

Histórias, memórias, amores,Raízes, vidas...

A força das ancestrais nós trouxeram até aqui!

O mesmo caminho que nós foi dada,pisamos com força, sentido o coração da pacha mama bater,nos mesmos compasso com o nosso...

Sinta-se,ame-se, cuide-se, lute,lute,lute para nunca deixar de acreditar na sua força, no seu espírito de mulher...

Somos todas elas...

Somos a cura para o mundo...

Somos o sinônimo de amor infinito...

Aqui piso com força, reafirmo minhas ancestrais...

Aqui eu canto os mesmos cantos de cura das minhas avós, mães e filhas dessa mãe-terra...

Se olhe, vista-se com a roupas da ancestralidade,sinta ecoar em sua alma o mesmo sopros de cura e sabedoria das ancestrais...

Somos o início e o fim...

Corpos-mulher, aqui tão temida, aqui tão desprezada, aqui tão massacrada,aqui acorrentada,aqui desmembrada, mais que se enraizada nos ceios da pacha mama,assim florestas florescem para jogar suas sementes, nessa floresta da ancestralidade...

Quebraram-se as correntes, corpos massacradas de seu sangue derramado neste chão, se desabrocham para mostrar sua força...

Somos todas elas!


Reavive a mulher em ti,reavive suas raízes, reavive suas memórias de todas as mulheres em seu espírito. 

Sua força me fortalece,se ilumine sempre,assim todas juntas iluminamos o mundo!

Por Fabiola Rodrigues


Minha terra tinha Palmeiras

Hoje nela nada gorjeia

O veneno escorre na areia

Deixa sangrar sua tez

Onde antes pulsava vida

Vê se apenas insensatez


Mas segue aflita a esperança

A reflorestar o sagrado

A curar o agravo

Da flora, fauna feridas

Um novo pulsar nas veias

Um olhar futuro criança


Fará preservar sua riqueza

Cuidar do solo vital

Expurgar dos rios o extermínio

E dos corações toda incerteza

Brademos contra criatura vil,

Que te fez sangrar meu Brasil!

Por Daniela Magalhães


Tô com preguiça de resenha

De correr atrás da lenha

E botar fogo pra ninguém pular


Tô com frio de ver estrela

De comer sem ter a mesa 

Posta de fita congelada


Tô com medo de ver o mar

Ver o amor e afogar

Afobada


Acabei de conferir

Cabelo, unha, make

De costas pra banda 

quadrada

Por Daniela Magalhães





O mel. Ensejo.

Desde onde que vejo

Fingir astúcia.

Finjo que sinto o gosto de tempo

De muita austeridade e verso

Acho que entendo.



O que a gente tenta sentir do verbo...

Ou do vento,

O que não passa

E,

além do intento,

O que não prestou.



A gente ainda acha,

Que termina essa merda... 


Ilustração: Cacinho

Por Camilla Silva




Sonhei que estávamos todos vacinados e que podíamos brincar novamente de ser feliz...

Voavam Marielles, Carolinas de Jesus, Abdias num mundo de tantas cores e mais igualitário. 

Sonhei que um grupo de coração grande e ás vezes de pavio curto sonhou em Luta e urgiu o  Luto! 

E outros lutaram juntos. 

Arco íris, poesias, devaneios, faíscas, labaredas surgiam e tudo era tão mágico...

Quase um conto de ninar para o pesadelo ir embora...

Sonhei que corações feridos caíram em lágrimas na beira de um rio. Será que era sonho? Eu vi! Tenho certeza que vi! Lágrimas de amor escorrendo em pleno domingo ensolarado de manhã.

Uma pessoa que um dia gritou voa longe Pavio chorou... 

Afinal... em meio ao caos o grupo Luto permaneceu aos sonhos... 

2 anos se passaram...

Quantas histórias...

Eu Luto! 

E chegaram mais... 

Uns foram... 

Outros voltaram...

Sonhei que o perdão acontece... e o amor permanece...

Voa longe Pavio! 

Sonhei que estávamos vacinados... E que da Luta eu Luto!


Ilustração: Clovis Lima 



quinta-feira, 11 de agosto de 2022

A força das montanhas

Ju Kerexu


Sou as montanhas que com sua paciência espera suas filhas e filhos retornarem aos seus pés.


Sou as montanhas que se viram em águas, que seguem com a maior paciência e resiliência o tempo da natureza agir…


Sou as montanhas que descansam tranquilas ao aguardo do retorno de seus antepassados.


Sou a força das montanhas, que se mantêm em sentinelas, observando com atenção a chegada e o passar dos tempos, que sabiamente aguarda.


Sou as águas que vêm das montanhas, que com suas águas sagradas curam as feridas do tempo que insistem em se abrir a cada tropeço que a humanidade dá.


Sou o sagrado que te atravessa sem saber, pois sou a raiz que te mantém firme, neste chão. 


Ilustração: Cacinho

Ser porque é

Por Fabíola Rodrigues



O toque quente do sol no meu corpo acariciado pelo vento

Meus pés tateando a areia onde as ondas beijam o mar...

Tudo é encantamento. É vida a transbordar

Meu olhos mareados da saudade são marcados pela verdade 

E vibram também a liberdade

Pois quem já pariu um mundo sabe a dor que é ser mulher

Ser porque é...


Ilustração: Cacinho 


sexta-feira, 17 de junho de 2022

VIRÃO



Por Eduardo Alves



Dias nublados 


Ares cinzentos 


A alegria foi passear 


Pediu licença 


Abriu novos caminhos 


Sigo sozinho 


Vou carregando a dúvida 


Nada se abriu 


Uma flor não brotou na rua 


As estrelas estão encobertas 


A lua escondeu sua face 


O tempo fechou 


O que resta é seguir 


Sozinho, sorrindo 


Com a flor na pele 


Aberto para encontros 


Eles virão 


Hoje ou amanhã 


Pode ser 


Mas virão 


Ilustração: Cacinho

Sabiás

Por Fabíola Rodrigues



Estou aqui a me lembrar 

que o sol há de brilhar

E o mundo a girar em Roda Viva

Ainda hei de ouvir cantar 

por todo canto Sabiás 

a acordar a esperança adormecida

E saber fazer a hora

O Infame irá cair

 em um brado retumbante

O luar há de surgir

Entre Estrelas cintilantes  


Ilustração: Cacinho

Pés descalços a caminhar

Por Ju kerexu



Ao andar pelas trilhas das matas...


Ao andar pelo caminho dos bosques...


Ao andar pelo caminho das pedras das grandes cidades, que já foram matas verdejantes, cidades que já foram aldeias...


Hoje ando com os pés descalços, para sentir de volta aquela vida, aquela energia das matas, das águas sagradas...


Quero aqui caminhar com meus guias, meu parentes, meus amigos, minhas irmãs, com cores e CANTOS...


Queremos aqui pisar com firmeza, com amor e gratidão no coração...


Vamos caminhar com os pés descalços, para sentir de volta a ancestralidade que aqui outros viveram e vivem...


Nas trilhas das matas, nas trilhas dos bosques, nas trilhas de pedra das grandes cidades, ali estamos! Carregando com a espiritualidade, a ancestralidade está presente!


Somos fortes, somos guerreiras e guerreiros, somos gritos, somos vozes que aqui viveram e vivem...


Vamos pisar com firmeza neste chão sagrado, com muito orgulho, somos cores, somos vozes dos cantos ancestrais!!!


Ilustração: Cacinho

O DESENCANTAMENTO DAS RUAS



Por Eduardo Alves




Nas ruas não há almas encantadoras 

Nas ruas, com ou sem a luz só há medo 

Nas ruas as almas encantadoras 

Suspiravam o sopro da liberdade!

As ruas hoje, com o medo presente, 

Suspiram o sopro do medo 

A inversão das ruas não se faz pelo vento 

A inversão das ruas é feita pelas pessoas 

Não são todas as pessoas 

Mas é um punhadinho de pessoas 

Com poder para impor o medo na multidão 

Basta quem compre para matar 

Basta quem tenha o que pagar pela morte 

E onde não há como se empregar, 

Haverá também quem se emprega para desencantar 

O suspiro que vem em sopro sórdido 

Tiram a vida sem trégua de Dom e do Indigenista!

Basta ser pessoa reconhecida na gira da justiça 

Para os poucos seres existentes na sórdida força do lucro,

Arrancar a vida e forçar a morte 

A morte é forçada no corpo, na alma, nos sonhos 

A alma da rua assim só tira o encantamento que podemos conquistar 

Vamos fazer valer a vida e fazer o encantamento predominar. 


Ilustração: Cristóvão Villela

domingo, 1 de maio de 2022

PaviANOS

Por Camilla Silva



1 ano

Chama reacendendo...

Como fogos de artifício num ano que se inicia!

Pra nós ARTEfício...

Magia

Força 

Inspiração 

Amor

Movimento 

Afeto 

Militância 

AMIZADE

Às vezes labaredas 

Às vezes chama

Que chama!

Às vezes o Pavio era Curto 

Tudo isso junto!

 E vira poesia! 

POESIA!

TransformAÇÃO!

1 ano...

Quanta história...

Riso

Choro

Abrigo

Afago

Partida

Pares

E cá estamos parindo novamente essa chama que nunca apagou...

Porque vem da alma!

1 ano...

E só estamos começando!

Século XXI


Por Fabíola Rodrigues


É a mesma seca no sertão

É a mesma sujeira na eleição

Qual foi a verdadeira evolução?


Não há cura...


É a mesma desnutrição

Mesma falta de educação

Ainda a mesma situação


Não há cura...


Nos homens igual ambição

Pelas ruas mais poluição

Ainda não há solução


E não há cura. 

Refugiados do Medo

Por Fabíola Rodrigues



Olha o céu vermelho

A noite de um sonho mal pensado

A grande névoa escura nos envolve

Corpos esfacelados.


Caminho só entre o chão

Que se move com medo

O chão gelado vermelho

A voz pálida cansada

E não sai,

Se arrasta calada.


Segure a mão fria

Do lado um pulso estático

Um olhar de espelho que não será mais quebrado,

A dor do vazio máximo.


Não corra, não há chegada,

Nem prêmio, talvez a vida.

Sua mente agora carrega

Não lembranças, mais feridas

Que não poderão ser curadas.

Receita à brasileira

Por Fabíola Rodrigues


Doce petrificação da humanidade

Estabilidade em calda,

E a todos agrada

E traz felicidade.


Que Paladar estranho

Tem o povo brasileiro!

Perdeu olhar faceiro,

Dá a cara a tapa

Para ser hospitaleiro.


Que prova amarga

Para nossa juventude!

Barulho por nada

E em tudo quietude.


A que ponto nós chegamos,

Para ser dessa forma Enrolados,

E de falsas esperanças salpicados?


Em compota ou em fôrma nos informa untados de hipocrisia.

Nesta década pré-aquecida de melancolia.