sábado, 1 de abril de 2023

As Folhas e o Vento

De Ju kerexu


Ando por lugares, que são guiados por meus ancestrais...


Sol, folha que desprendeu da árvore ancestral...


Sol, levada pelo sopro da sábia xejaryi (avó) que é o vento...


Sopros que me encorajam, que me levam sem perceber a lugares, nos espaços que em sonhos teria sonhado...


Somos feitos de sonhos, amores, pessoas que nos cercam, famílias, deixemos que os ventos nos atravessem, para dizer em sussurros os caminhos...


As folhas são nossos sonhos, deixem ele ser levado por nossa sábia velha senhora, para que ela possa colocar no seu devido lugar, que muitas vezes ficamos presos a elas...


É só deixar ir, nunca estará sozinha, o vento estará conduzindo...


Somos filhas e filhos do vento, somos folhas ao vento, somos sussurros de sabedorias guiadas pelos ancestrais...


Deixem soprar!


Ilustração: Cacinho

Por Daniela Magalhães


Procurei colchão largo

Pro meu campo de batalha

Encontrei no fio da saia


E o estrago da cabeça d'água

Achei, mas nunca vi


Me perdi no céu 

do trilho a nado

Água que não acaba

Entrando em verde amargo


E o estrago da jararaca

Eu vi, mas não bebi


Muito bonita, por acaso...

Somos todas Elas

De Ju Kerexu 

   

Sejamos como elas...

Sejamos Mulheres...

O mundo la pacha mama eres tu...

Somos nossas a vós, nossas bisavós, nossas mães...

Histórias, memórias, amores,Raízes, vidas...

A força das ancestrais nós trouxeram até aqui!

O mesmo caminho que nós foi dada,pisamos com força, sentido o coração da pacha mama bater,nos mesmos compasso com o nosso...

Sinta-se,ame-se, cuide-se, lute,lute,lute para nunca deixar de acreditar na sua força, no seu espírito de mulher...

Somos todas elas...

Somos a cura para o mundo...

Somos o sinônimo de amor infinito...

Aqui piso com força, reafirmo minhas ancestrais...

Aqui eu canto os mesmos cantos de cura das minhas avós, mães e filhas dessa mãe-terra...

Se olhe, vista-se com a roupas da ancestralidade,sinta ecoar em sua alma o mesmo sopros de cura e sabedoria das ancestrais...

Somos o início e o fim...

Corpos-mulher, aqui tão temida, aqui tão desprezada, aqui tão massacrada,aqui acorrentada,aqui desmembrada, mais que se enraizada nos ceios da pacha mama,assim florestas florescem para jogar suas sementes, nessa floresta da ancestralidade...

Quebraram-se as correntes, corpos massacradas de seu sangue derramado neste chão, se desabrocham para mostrar sua força...

Somos todas elas!


Reavive a mulher em ti,reavive suas raízes, reavive suas memórias de todas as mulheres em seu espírito. 

Sua força me fortalece,se ilumine sempre,assim todas juntas iluminamos o mundo!

Por Fabiola Rodrigues


Minha terra tinha Palmeiras

Hoje nela nada gorjeia

O veneno escorre na areia

Deixa sangrar sua tez

Onde antes pulsava vida

Vê se apenas insensatez


Mas segue aflita a esperança

A reflorestar o sagrado

A curar o agravo

Da flora, fauna feridas

Um novo pulsar nas veias

Um olhar futuro criança


Fará preservar sua riqueza

Cuidar do solo vital

Expurgar dos rios o extermínio

E dos corações toda incerteza

Brademos contra criatura vil,

Que te fez sangrar meu Brasil!

Por Daniela Magalhães


Tô com preguiça de resenha

De correr atrás da lenha

E botar fogo pra ninguém pular


Tô com frio de ver estrela

De comer sem ter a mesa 

Posta de fita congelada


Tô com medo de ver o mar

Ver o amor e afogar

Afobada


Acabei de conferir

Cabelo, unha, make

De costas pra banda 

quadrada

Por Daniela Magalhães





O mel. Ensejo.

Desde onde que vejo

Fingir astúcia.

Finjo que sinto o gosto de tempo

De muita austeridade e verso

Acho que entendo.



O que a gente tenta sentir do verbo...

Ou do vento,

O que não passa

E,

além do intento,

O que não prestou.



A gente ainda acha,

Que termina essa merda... 


Ilustração: Cacinho

Por Camilla Silva




Sonhei que estávamos todos vacinados e que podíamos brincar novamente de ser feliz...

Voavam Marielles, Carolinas de Jesus, Abdias num mundo de tantas cores e mais igualitário. 

Sonhei que um grupo de coração grande e ás vezes de pavio curto sonhou em Luta e urgiu o  Luto! 

E outros lutaram juntos. 

Arco íris, poesias, devaneios, faíscas, labaredas surgiam e tudo era tão mágico...

Quase um conto de ninar para o pesadelo ir embora...

Sonhei que corações feridos caíram em lágrimas na beira de um rio. Será que era sonho? Eu vi! Tenho certeza que vi! Lágrimas de amor escorrendo em pleno domingo ensolarado de manhã.

Uma pessoa que um dia gritou voa longe Pavio chorou... 

Afinal... em meio ao caos o grupo Luto permaneceu aos sonhos... 

2 anos se passaram...

Quantas histórias...

Eu Luto! 

E chegaram mais... 

Uns foram... 

Outros voltaram...

Sonhei que o perdão acontece... e o amor permanece...

Voa longe Pavio! 

Sonhei que estávamos vacinados... E que da Luta eu Luto!


Ilustração: Clovis Lima 



quinta-feira, 11 de agosto de 2022

A força das montanhas

Ju Kerexu


Sou as montanhas que com sua paciência espera suas filhas e filhos retornarem aos seus pés.


Sou as montanhas que se viram em águas, que seguem com a maior paciência e resiliência o tempo da natureza agir…


Sou as montanhas que descansam tranquilas ao aguardo do retorno de seus antepassados.


Sou a força das montanhas, que se mantêm em sentinelas, observando com atenção a chegada e o passar dos tempos, que sabiamente aguarda.


Sou as águas que vêm das montanhas, que com suas águas sagradas curam as feridas do tempo que insistem em se abrir a cada tropeço que a humanidade dá.


Sou o sagrado que te atravessa sem saber, pois sou a raiz que te mantém firme, neste chão. 


Ilustração: Cacinho

Ser porque é

Por Fabíola Rodrigues



O toque quente do sol no meu corpo acariciado pelo vento

Meus pés tateando a areia onde as ondas beijam o mar...

Tudo é encantamento. É vida a transbordar

Meu olhos mareados da saudade são marcados pela verdade 

E vibram também a liberdade

Pois quem já pariu um mundo sabe a dor que é ser mulher

Ser porque é...


Ilustração: Cacinho 


sexta-feira, 17 de junho de 2022

VIRÃO



Por Eduardo Alves



Dias nublados 


Ares cinzentos 


A alegria foi passear 


Pediu licença 


Abriu novos caminhos 


Sigo sozinho 


Vou carregando a dúvida 


Nada se abriu 


Uma flor não brotou na rua 


As estrelas estão encobertas 


A lua escondeu sua face 


O tempo fechou 


O que resta é seguir 


Sozinho, sorrindo 


Com a flor na pele 


Aberto para encontros 


Eles virão 


Hoje ou amanhã 


Pode ser 


Mas virão 


Ilustração: Cacinho

Sabiás

Por Fabíola Rodrigues



Estou aqui a me lembrar 

que o sol há de brilhar

E o mundo a girar em Roda Viva

Ainda hei de ouvir cantar 

por todo canto Sabiás 

a acordar a esperança adormecida

E saber fazer a hora

O Infame irá cair

 em um brado retumbante

O luar há de surgir

Entre Estrelas cintilantes  


Ilustração: Cacinho

Pés descalços a caminhar

Por Ju kerexu



Ao andar pelas trilhas das matas...


Ao andar pelo caminho dos bosques...


Ao andar pelo caminho das pedras das grandes cidades, que já foram matas verdejantes, cidades que já foram aldeias...


Hoje ando com os pés descalços, para sentir de volta aquela vida, aquela energia das matas, das águas sagradas...


Quero aqui caminhar com meus guias, meu parentes, meus amigos, minhas irmãs, com cores e CANTOS...


Queremos aqui pisar com firmeza, com amor e gratidão no coração...


Vamos caminhar com os pés descalços, para sentir de volta a ancestralidade que aqui outros viveram e vivem...


Nas trilhas das matas, nas trilhas dos bosques, nas trilhas de pedra das grandes cidades, ali estamos! Carregando com a espiritualidade, a ancestralidade está presente!


Somos fortes, somos guerreiras e guerreiros, somos gritos, somos vozes que aqui viveram e vivem...


Vamos pisar com firmeza neste chão sagrado, com muito orgulho, somos cores, somos vozes dos cantos ancestrais!!!


Ilustração: Cacinho

O DESENCANTAMENTO DAS RUAS



Por Eduardo Alves




Nas ruas não há almas encantadoras 

Nas ruas, com ou sem a luz só há medo 

Nas ruas as almas encantadoras 

Suspiravam o sopro da liberdade!

As ruas hoje, com o medo presente, 

Suspiram o sopro do medo 

A inversão das ruas não se faz pelo vento 

A inversão das ruas é feita pelas pessoas 

Não são todas as pessoas 

Mas é um punhadinho de pessoas 

Com poder para impor o medo na multidão 

Basta quem compre para matar 

Basta quem tenha o que pagar pela morte 

E onde não há como se empregar, 

Haverá também quem se emprega para desencantar 

O suspiro que vem em sopro sórdido 

Tiram a vida sem trégua de Dom e do Indigenista!

Basta ser pessoa reconhecida na gira da justiça 

Para os poucos seres existentes na sórdida força do lucro,

Arrancar a vida e forçar a morte 

A morte é forçada no corpo, na alma, nos sonhos 

A alma da rua assim só tira o encantamento que podemos conquistar 

Vamos fazer valer a vida e fazer o encantamento predominar. 


Ilustração: Cristóvão Villela

domingo, 1 de maio de 2022

PaviANOS

Por Camilla Silva



1 ano

Chama reacendendo...

Como fogos de artifício num ano que se inicia!

Pra nós ARTEfício...

Magia

Força 

Inspiração 

Amor

Movimento 

Afeto 

Militância 

AMIZADE

Às vezes labaredas 

Às vezes chama

Que chama!

Às vezes o Pavio era Curto 

Tudo isso junto!

 E vira poesia! 

POESIA!

TransformAÇÃO!

1 ano...

Quanta história...

Riso

Choro

Abrigo

Afago

Partida

Pares

E cá estamos parindo novamente essa chama que nunca apagou...

Porque vem da alma!

1 ano...

E só estamos começando!

Século XXI


Por Fabíola Rodrigues


É a mesma seca no sertão

É a mesma sujeira na eleição

Qual foi a verdadeira evolução?


Não há cura...


É a mesma desnutrição

Mesma falta de educação

Ainda a mesma situação


Não há cura...


Nos homens igual ambição

Pelas ruas mais poluição

Ainda não há solução


E não há cura. 

Refugiados do Medo

Por Fabíola Rodrigues



Olha o céu vermelho

A noite de um sonho mal pensado

A grande névoa escura nos envolve

Corpos esfacelados.


Caminho só entre o chão

Que se move com medo

O chão gelado vermelho

A voz pálida cansada

E não sai,

Se arrasta calada.


Segure a mão fria

Do lado um pulso estático

Um olhar de espelho que não será mais quebrado,

A dor do vazio máximo.


Não corra, não há chegada,

Nem prêmio, talvez a vida.

Sua mente agora carrega

Não lembranças, mais feridas

Que não poderão ser curadas.

Receita à brasileira

Por Fabíola Rodrigues


Doce petrificação da humanidade

Estabilidade em calda,

E a todos agrada

E traz felicidade.


Que Paladar estranho

Tem o povo brasileiro!

Perdeu olhar faceiro,

Dá a cara a tapa

Para ser hospitaleiro.


Que prova amarga

Para nossa juventude!

Barulho por nada

E em tudo quietude.


A que ponto nós chegamos,

Para ser dessa forma Enrolados,

E de falsas esperanças salpicados?


Em compota ou em fôrma nos informa untados de hipocrisia.

Nesta década pré-aquecida de melancolia.

Voa longo, Pavio Curto!

Por Alvaro Britto



“O pensamento parece uma coisa à toa 

Mas como a gente voa quando começa a pensar”

Lupicínio Rodrigues



31 de março ou 1º de abril?  Triste memória da história do Brasil

Para o Pavio Curto, protesto mas também um dia de recomeço

Mas ele não renasceu das cinzas

20 anos depois, a chama do Pavio nunca se apagou 


Deixou lembranças que permaneceram acesas

Dom Waldir em entrevista explosiva, quem esquece?

Henfil, nosso primeiro patrono, detonando geral

E sempre que havia uma centelha de esperança, eles tentaram alimentá-la

Clovis, Cristóvão, Cacinho, Alvaro...


No início de 2021, o reencontro: a chama continua acesa e forte! 

O Brasil vivendo um momento de escuridão

Precisamos incendiar essa realidade e trazer de volta a luz da esperança

Novas fagulhas nos iluminam o caminho

Abdias, Juruna, Chico Mendes, Irmã Dorothy, Margarida Alves, Marielle, Olga, Zuzu...

E Paulo Freire, às vésperas do seu aniversário de cem anos


Mídias e plataformas digitais, reuniões virtuais, redes sociais...

Novas ferramentas mas usadas sempre pra detonar o capitalismo

O Pavio quer incendiar o planeta de vida, amor, justiça, liberdade e diversidade...


Diversidade!! Era preciso trazê-la para dentro desse incêndio coletivo 

Novas pautas, temáticas, conteúdos...mas faltava quem detonasse

Novas acendedoras logo botaram fogo no parquinho

Feminismos, luta antirracista, defesa dos povos indígenas, combate à LGBTfobia...

Tudo sempre iluminado pela construção coletiva e protagonismo dos oprimidos e explorados


Abril de 2022: um ano depois do recomeço

Novas acendedoras, novos projetos, sonhos renovados

Pandemia e inominável partindo...essa a nossa esperança e luta


Houve momentos em que a luz pareceu perder brilho, a chama ameaçou apagar, o detonador falhou...

Mas a centelha do Pavio permanece acesa nos nossos corações e sonhos

E “a gente voa quando começa a pensar” e iluminar novos caminhos!

E continuamos detonando!

Vida longa ao Pavio Curto!!


Ilustração: Cacinho

Outono e o vento

Por Ju kerexu


Somos ventos que rasgam os dias e trazem as falas em silêncio do outono...

Ventos vão aonde precisa, buscando cada fresta, cada queda de penhasco para ganhar mais velocidade...

Eles vêm com mais profundidade nos tempos que muito se tem a dizer...

No outono tudo perde sua cor, tudo se ganha cor, depende do ponto de vista de cada olhar...

Ah olhares, e como se pudéssemos buscar e buscar sem sair do lugar, "mas, está ali" - dizia minha mãe, - "olhe com o olhar da alma para enxergar o que está ali..."

Oh meu querido vento, o senhor que tudo sente e tudo vê, à distância ou de perto, queria ser tu! - dizia eu, quando sentindo em minha face sua chegada...

Sentar numa pedra e fechar os olhos, e dar boas-vindas ao vento que dá o frescor da senhora sábia que é o outono, sábia, pois ela é o momento que as árvores esperam para saber a hora certa para deixar cair suas filhas...

Suas amadas folhas, mesmo amando-as, as deixa cair, se deixa ser acariciada pela senhora sábia, assim sabe que o tempo é quem cura, o tempo vai dar de novo as folhas novas no lugar daquelas que se foram, e assim continuar sua vida, que é nascer, crescer, florescer e dar frutos....

Fincar com mais força suas raízes no chão sagrado, pois sabe que são os ventos que vêm trazendo a senhora sábia e forte...

Finque com força suas raízes neste chão, não deixe o medo de soltar suas folhas secas lhe deixar de sentir os ventos das mudanças passar...

Deixemos o vento entrar em nossas frestas para acalentar, para soprar nossos corações e refrescar nossa alma...

Deixemos a sabedoria do tempo nos ascender, soprar, levar..., nos dizer o que ela tem a nos contar sobre nós...

Descalça, sentada, numa pedra, deixo que a senhora sábia me diga em silêncio sobre meu existir nesta imensa jornada, que é o saber soltar, saber deixar que as feridas cicatrizem com o sopro do tempo...

Deixem vir, deixem ir, deixem transpassar, deixem chegar, não deixem nunca de se deixar curar...

Olhares, abraços em silêncio

De Ju kerexu


Me salva uma conversa...

Um papo sem pensar em nada, apenas risos...

Risos salvam meu dia...

Amor próprio me mantém erguida, amor pela vida me abraça com mais força quando escuto o silêncio...

O silêncio me diz o quanto sou forte, o silêncio me ensina a amar a mim mesma...

Os dias de sol me vêm e ensinam o quanto é lindo e a essência do ser mulher, e raios de Sol se espalham através do olhar radiante que carrego nas profundezas da minha alma, o acalento do amor a existir em mim...

Existência salve, salva, saúda o amor..., por existir na esperança do amor...

Olhares, abraços, colo, sorrisos, salva, salve, saúda o amor ao ser forte, ser mulher, mulheres, amor infinito do poder de amar mais que a si mesma...

Olhe, procure, busque, saúde a vida, salve, salva com amor...

Acolhida, acorde, acolher, aconcheguei, acolha...

Saudar a vida, salve, salva de palmas à vida...

Saudades, saúde, sair, sal do mar...

Saudades de simplesmente rir, saúde física, especialmente mental nesses dias de profunda escuridão, sair para observar o vento que traz o outono com sua brisa leve e fria, que me traz arrepios bons, sal do mar para renovar minha esperança, para salgar meus pensamentos que andam meio sem sal...

Saltar para o outro lado do rio, salve seu caboclo, saudar oh senhor Sol, salve meus ancestrais, salve minha mãe, saúdo minhas mães, salve mulheres!!

Busque paz no caos, ame mesmo que digam que não exista mais amor, tenha esperança mesmo que o mundo diga o contrário...

Seja paz, seja amor, seja esperança, seja sempre você, se olhe, se acolha, se ame...

Olhares, abraços, abraços em silêncio me mostra o amor, esperança que ali existe, a existência no existir a vida...