terça-feira, 3 de agosto de 2021

Olhares da alma

Ilustração clovis Lima

 
Por Ju Kerexu


                  Olhares da alma

Os olhares que carregamos dizem muito, dizem o que somos...


O olhar é por onde conseguimos enxergar o sentido mais sublime do amor...


O olhar não mente, quando os olhos brilham, porque é o mais puro e verdadeiro...


A alma, o espírito, falam por olhares! Muitas das vezes não precisamos trocar palavras e sim o mais simples olhar diz muito, diz a verdade.


O amor do auto-olhar é isso também, não deixe de lembrar de se olhar demostrar o amor por ti...


Sinta-te, ame-te, admire-te...


Ame com olhares, admire com olhares, acolha com olhares...


Amizade, amor, admiração, emoção, também podemos compartilhar com olhares...


O momento que estamos vivendo estamos carentes de toques e abraços, mas não esqueçamos que ainda podemos compartilhar tudo isso através dos nossos olhares...


O olhar é o ascendente da ancestralidade, espiritualidade... O desaguar num mar de infinito amor, compreensão, acolhimento, reconhecimento...


O olhar é o caminho da espiritualidade...


Não deixemos de olhar pelas janelas da alma!


domingo, 4 de julho de 2021

Bandido

 Por Val Nunes


Essa é só pra quem é bandido,

Quem anda de magrela

E a nota fiscal é exigida

Só por cautela.


Quem é abordado no supermercado

Porque está de mochila.


Pra quem é confundido,

Quem faz um movimento suspeito,

Uma pele suspeita,

Um nariz suspeito.

"Quem tem um pezinho lá".


É só pra quem é bandido.


Pra quem tá correndo e encontra uma bala,

Quem tá parado e encontra uma bala,

Quem tá em casa e... Putz...

Cujas balas só se perdem em caminhos de corpos pretos.


Quem tá nos guetos,

Nas favelas,

Nas vielas,

Nos morros sem o básico do básico para viver:


Saúde,

Escola,

Lazer.


Só pra bandido

Que anda em meio ao esgoto a céu aberto.


Aaaaaah, o céu!!!!

Quando eu penso que é de lá que me vem o socorro,

O socorro vem de Brasília

Em meio à pandemia.

Que patifaria.


Help.

O Brasil tá lascado só pra "bandido pardo",

Preto e vermelho.

Cidadão de bem veste verde e amarelo.

Yello.

Oooo my god!!!!


Como cê vai virar Dotô com a barriga roncando,

Com o barraco caindo,

Com as pedras rolando morro abaixo,

Atropelando tudo que sua mãe construiu:

A beliche,

O “réqui”,

O guarda roupas com roupas doadas na enchente passada.


Essa é só pra quem é bandido,

Quem tá cansado,

Quem tá exausto,

Quem tá perdido.


Tentando se encontrar numa fresta de luz que for,

Se agarrando na linha da pipa pra num fazer merda,

Procurando um pedacinho do sol que nasce pra todos

Mesmo que for bem pequenino.

Que musa o mundo.

Que muda tudo.

Que traga o fim da desigualdade social,

O fim das mortes pretas,

O fim da corrupção na política brasileira,


Pra quem pensa

Como colher esperança

Num país que planta ódio.


Essa é só pra bandido!




quarta-feira, 16 de junho de 2021

Voa longo, Pavio Curto!

Ilustração Mani Ceiba


“O pensamento parece uma coisa à toa 

Mas como a gente voa quando começa a pensar”

Lupicínio Rodrigues

Por Alvaro Britto (acendedor de poema de primeira chama)


31 de março, dia de triste memória da história do Brasil

Para o Pavio Curto, protesto mas também um dia de recomeço

Mas ele não renasce das cinzas

20 anos depois, a chama do Pavio nunca se apagou 


Deixou lembranças que permaneceram acesas

Dom Waldir em entrevista explosiva, quem esquece?

Henfil, nosso primeiro patrono, detonando geral

E sempre que havia uma centelha de esperança, eles tentaram alimentá-la

Clovis, Cristóvão, Cacinho, Alvaro...


No início de 2021, o reencontro: a chama continua acesa e forte! 

O Brasil vivendo um momento de escuridão

Precisamos incendiar essa realidade e trazer de volta a luz da esperança

Novas fagulhas nos iluminam o caminho

Abdias, Juruna, Chico Mendes, Irmã Dorothy, Margarida Alves, Marielle, Olga, Zuzu...

E Paulo Freire, às vésperas do seu aniversário de cem anos


Mídias e plataformas digitais, reuniões virtuais, redes sociais...

Novas ferramentas mas usadas sempre pra detonar o capitalismo

O Pavio quer incendiar o planeta de vida, amor, justiça, liberdade e diversidade...


Diversidade!! Era preciso trazê-la para dentro desse incêndio coletivo 

Novas pautas, temáticas, conteúdos...mas faltava quem detonasse

Duas acendedoras logo botaram fogo no parquinho: Mani e Camilla!!

Feminismos, luta antirracista, defesa dos povos indígenas, combate à LGBTfobia...

Tudo sempre iluminado pela construção coletiva e protagonismo dos oprimidos e explorados


Há momentos em que a luz parece perder brilho, a chama pode apagar, o detonador falhar...

Mas a centelha do Pavio permanece acesa nos nossos corações e sonhos

E “a gente voa quando começa a pensar” e iluminar novos caminhos!

E continuamos detonando!

Vida longa ao Pavio Curto!!


Afeto sapatão

 

Ilustração Mani Ceiba


Por Val Nunes


Que isso

Que não posso amar uma mulher

Amar uma mulher é libertador

Nessa sociedade

De merda patriarcal

Amar uma mulher é revolução

É caminho

É luta

É politica 

Politico 

É afeto sapatão


Mulher fogo

Que não se deixa levar

Vai com suas próprias pernas

Mais bela que a beleza comum

Que de um em um rebelar

Vai salvando o mundo

Desse absurdo

 de sermos o que omi quer

 E é no poder dessa mulé

Que insisto no feitiço de dizer

Salvação

Mulherão

Mulheraço

Mulher mil

Afeto sapatão


Que lugar é esse que não posso beijar uma mulher

Só resisto se ela não quiser

Beijo

Afago

Afogo meus lábios

Afoito meu abraço

amaço

Amo

Demonstro

Pego na mão

De dia 

De tarde

De noite

Na praça

Na rua

No chão 

Consideramos justo

Toda nossa paixão 

Todo afeto sapatão


Essa mulher cameleão

Varias cores

Sabores

Amores

Que faz suas escolhas

Suas bolhas

Seus laços

Seus passos



Aquela que não precisa de ninguém

Mas escolhe o colo de quem sente refugio


Como uma fuga insana

Corre pras suas madeixas 

E deixa

O riso sair


Tantos momentos quis desistir

Quis sumir

Sucumbir

Tanta dor reduzida

Escondida

De quem tem que provar todo dia 

Sua  existência

E em sequência de pedaços 

De partículas

De partidas

Partilhados

Partituras

Ela se refaz

Se cura

Se transforma

Se mistura

Feito uma transição

Feito arco íris

Feito borboleta

Feito afeto sapatão 


Te amo!!


segunda-feira, 14 de junho de 2021

Era para ser um canto de liberdade (às mães que perderam os seus filhos, às mulheres encarceradas de todas as formas)

 

Ilustração Mani Ceiba


Flávia Fernando

Era pra ser um canto de liberdade

Um canto, ainda que chamuscado, das faíscas que queimaram os corpos de nossas irmãs, outrora

Aquelas, curandeiras, sabedoras de si

Dos seus feitiços fizeram argumentos de acusação do mal


Era pra ser um canto de liberdade

E é assim meio tonto, meio vertigem

Canto de banzo, de maresia

Canto de navio, de sequestro, de corrente

De fel da diáspora

Pedaço de saia

Boneca sem olho

Brinquedo acalanto, nas noites do mar


Era pra ser um canto de liberdade

E foi estilhaçado de espelho, sífilis, de roubo, dizimação

Canto silenciado, negado

Sem lugar em meio ás violências todas, os tantos açoites

É também um canto quase réquiem

Pelos companheiros que se foram

Os filhos levados

O sumiço das nossas histórias



E delas fazem

Ficha policial, estatística, categoria diagnóstica


Tentam se apossar

Do nosso útero, da nossa cabeça, do nosso desejo

Da ancestralidade que nos funda

Tentam, mas não conseguirão!


Era pra ser um canto de liberdade

E foi trincado

Trincado pelas grades

Dos manicômios, prisões e conventos


Disseram-nos bruxas, loucas e histéricas

Dizem-nos drogadas, perigosas, macumbeiras, vadias

E somos mesmo!


Era pra ser um canto de liberdade e é-

É um grito, um uivo

Um oceano revolto no olho

Um suspiro, um cansaço


Um suspiro, um cansaço

Da violência do não pertencimento

Da expropriação de nós mesmas

Do saque de todo dia


Mas esse canto, rouco, torto, tonto

Só se faz ponto,

Se firma ponto

Se um verso de uma chama tambor do coração da outra

Pelo o desejo de liberdade de existir

De ser quem a gente é

De não negar as diferenças

De negociar os egos, privilégios


E seguirmos 

Escapando da morte e da prisão

Do patriarcado e do racismo

Fabricando outros espaços-tempo-respiração

Juntas- VIVAS!


domingo, 30 de maio de 2021

Recado dos ancestrais

Ilustração MANI CEIBA

POR JUKEREXU

Eu tive um sonho, no sonho os nossos ancestrais vieram...


Mostraram um mundo arrasado, sem matas, sem os rios, sem fauna, sem ecossistemas, sem flora e por resultado o fim da nossa existência.


Os ancestrais nos mostraram o futuro.

Para que nós não demoremos a entender que nossas ações têm que mudar, porque a nossa mãe Terra precisa dessa nossa ajuda.


Pois somos todos filhos e filhas dela.

Sem a nossa mãe Terra não temos como existir.

"Um recado dos ancestrais"!


Vamos mudar enquanto há tempo!

sábado, 1 de maio de 2021

Soneto do dia seguinte

Por Paulo Cesar da Silva



Ao findar a prolongada tormenta, as trevas finalmente dissipadas,

Quero retornar inquieto, feito criança, apossar-me de parques e praças,

Ocupar alamedas e vielas, cantar e protestar na mesma pólis fraturada.

Irei expandir os sentidos, reconectar a ternura, relimar os afetos.


Que a natureza seja cúmplice ativa de todos os meu gestos.

Que o planeta respire, que a terra inspire novos mantras de cuidado

Enquanto se aprende que a essência ainda provém de pequeninos frascos.      

Longos pesadelos despertam para a imprescindível urgência da fantasia. 


Vamos conceber um novo dialeto onde as palavras serão como flores, jamais como facas:

Suavemente penetrarão os ouvidos como a delicada harmonia das canções do belo Milton.

A poesia será permitida a qualquer hora do dia, bem como mergulhar pés descalços nos gramados e rios.

Vamos cultivar as esperanças fora dos cativeiros, que limitavam nossa humana capacidade de transcender.

Seremos finalmente curados das intolerâncias, da hipotermia do consumo, do egocentrismo cósmico.

Nos encontraremos, nos reconheceremos passageiros da mesma arca, intrépidos habitantes do mesmo lar.



sexta-feira, 30 de abril de 2021

Encruzilhada, Encruza, em Cruz, na “Terra de Vera Cruz”?

Por Daniel Vila-Nova


Toda segunda nasce do ventre de uma encruzilhada. Para além dos sentidos místicos e espirituais, em toda encruza nasce uma dupla contingência: uma escolha; e uma abnegação.



Em meio ao pandemônio pandêmico que segue a ceifar vidas aos milhares, a decisão por publicar esta coluna tem esse “quê” de achado, mas também do que fica perdido pelos caminhos e bifurcações.

A senda dos calendários nem sempre é muito segura, mas nos traz alguns indicativos. Em outras culturas e tradições linguísticas nacionais, as “brasileiras” Segundas-Feiras são dedicadas ao nosso único satélite natural: a Lua.

Como é fascinante acompanhar as danças diárias desse corpo celeste que tanto desperta o interesse dos viventes, sejam amantes, sejam agricultores, sejam pescadores, sejam poetas… Aliás, preciso me apresentar: sou Daniel Vila-Nova, um cidadão brasileiro que, para fazer jus à expressão cunhada por Joaquim Maria, se constitui enquanto “poeta de palavras”. A cada semana, assim como as 4 fases lunares, o desejo do colunista que vos escreve — querida leitora, querido leitor e “queride” que lê — é o de provocar.

Não existe solução fora do tumulto. Ou seja: não adianta chegarmos a mais uma segunda e seguirmos sentados diante da pedra que chora na encruza.

Por falar em cruzamentos, na cruz, há muito sobre nós. Num outro 26 de abril — o do ano 1500 —, quando tudo o que aqui está foi chamado de “Terra de Vera Cruz”, rezou-se a chamada “primeira missa”. Não foi a primeira do “Brasil”, porque sequer havia acontecido essa “invenção” — na opinião deste humilde autor, quiçá, a mais fascinante das experiências neste reles planetinha.

“O Brasil tem um grande passado pela frente”, nos diz Millôr com uma ousadia mais universal que os famigerados 521 anos do nosso “descobrimento” — talvez, a maior “Fake news” que já vagou por estas bandas… Esse, o mote que esbarraremos a cada segunda. Para falar desta, Segunda (26), impossível não falar da anterior, o 19 de abril — o vulgo “Dia do Índio”.

Os povos indígenas foram os primeiros povos brasileiros (leia-se “povos”, no plural). São — e continuam sendo — o Brasil antes da invenção da “brasilidade”. Torço para que sobrevivam a tudo o que aí está, assim como o Peri, de Caetano.

Nas línguas que circulavam naquelas então recém “batizadas” terras da “verdadeira cruz”, existiam outras crenças, outras culturas, outros nomes… Todos e todas ignoradas. Milhares de Peris e de Iracemas exterminados…

Isso não é novidade desta Segunda (26 de abril de 2021): os genocidas batem à porta de muitas segundas, por aqui, há muito tempo. E o genocídio insiste em continuar na moda. A “indesejada das gentes” sabe que cada segunda é dia de despedidas. Aliás, esta é a única certeza que se leva de cada passagem.

Do passado remoto para o presente e do Hoje de volta ao passado, mais de três séculos depois do “culto”, um pintor “brasileiro” — porque nascido no então “Império do Brazil”, com “z” — retratou a tal missa. O quadro é um verdadeiro “suco de Brasil”, com “s”. E é uma a figura que ilustra a estreia desta coluna. Nela, veja o lugar dos povos brasileiros nativos. Note onde estão os colonizadores. Há toda uma iconografia política que diz mais que todas estas palavras reunidas em torno desta “Cruz” chamada Segunda…

A expressão indígena para aquelas terras invadidas por portugueses era “Pindorama”. O termo pode ser associado a “região das palmeiras”. É exatamente esse o canto que a “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias exalta.

“Minha terra tem mortes…

Onde cantam?

Cantam o quê mesmo?”

Em tempos tão estranhos e mórbidos, a sensação de exílio nos invade a todos. Vou escrever, agora, o porquê escrevo. Escrevo porque, de outro jeito, não faria sentido algum caminhar por aqui. Cada “folha de papel”, cada “pedacinho de Blog” é uma caverna na qual vou deixando as minhas rupestres marcas. É assim que honro as palmeiras e os sabiás que me enchem de esperança, apesar de tanta angústia.

Este homem-da-caverna, aqui, se escreve com hífen de Vila-Nova. Tem prenome do profeta bíblico que, segundo a narrativa, conviveu com leões em calabouços da política.

A cada segunda, um encontro com um novo leão. Uma nova esfinge a nos desafiar: “decifra-me ou te devoro”. A motivação desta caminhada de palavras por encruzilhadas, pelas encruzas da vida, é, portanto, a de dar algum consolo aos pés que seguem furados e sangrando, diante de tantas pedras e armadilhas pelo caminho.

Com um sinal da cruz, peço bênção a quem for de bênção, permissão a quem nos concede energia e iluminação e, sobretudo, paciência. As segundas costumam ser os dias mais odiados da semana. Por tudo que está escrito acima, é exatamente isso que me move.  Pelo amor das luas que movem as segundas, eis as primeiras andanças deste dândi à deriva.


Dândi-à-Deriva* é o pseudônimo de Daniel Vila-Nova. Brasiliense, poeta, jurista e professor, com formação em Direito e em Política. Em 2009, publicou, pela LTR Editora, o livro “Rádios Comunitárias, Serviços Públicos e Cidadania: uma nova ótica constitucional para os serviços públicos de (tele)comunicações no Brasil” — fruto de sua dissertação de Mestrado em Direito, Estado e Constituição, pela Universidade de Brasília (UnB). Em 2017, publicou #PoesiaBinária: #Fr4gm3nt0s, pela Editora Cryativa. Em 2021, defendeu a Tese de Doutorado “Supremologia: o STF nas encruzilhadas da Política & do Direito no Brasil”, pelo Departamento de Ciência Política do Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Federal Fluminense (DCP/ICHF/UFF).

Serpente

Luíza Alves



Ser mente, ser sabedoria, dentro da cabeça estará o guia. O encantamento está além da pele, está no modo que lá se move, e como ele a respeita é muito mais sagrado do que se imagina.

Ele a observa e aprende, pois sua beleza está na sabedoria, que há no silêncio e no respeito mútuo entre dois seres que dividem a mesma terra.

Serpente ser mente, com som do seu corpo conduz a sabedoria de se admirar a caça em silêncio. A mente sorri é os olhos a cumprimentam, com a devida igualdade e com o respeito de ser um guia, traz o conhecimento de não subestimar o povo que aqui já estava.

segunda-feira, 19 de abril de 2021

A grande Árvore e suas sementes

 


Por Ju Kerexu
Ilustração: Mani Ceiba


Nós somos a semente chamada Mulher!

Nós somos a terra, que faz germinar essas sementes sagradas, que alimentam os corpos e o espírito.

Somos as raízes que se mantém firme e forte, mesmo com tantas adversidades, que insistem em corta-las e enfraquece-las.

Somos as fortalezas que mantém de pé todos e tudo!

Somos a vida!

Somos corpos sagrados, quem gerou, gera e vai gerar este mundo!

Somos o ventre sagrado!

Somos todas elas, antecessoras das nossas ancestrais, somos os corpos sagrados que deram início a vida, que fortalece o presente e enraiza o futuro, que nos acalenta com seu sopro de sabedoria e força!