domingo, 30 de maio de 2021

Recado dos ancestrais

Ilustração MANI CEIBA

POR JUKEREXU

Eu tive um sonho, no sonho os nossos ancestrais vieram...


Mostraram um mundo arrasado, sem matas, sem os rios, sem fauna, sem ecossistemas, sem flora e por resultado o fim da nossa existência.


Os ancestrais nos mostraram o futuro.

Para que nós não demoremos a entender que nossas ações têm que mudar, porque a nossa mãe Terra precisa dessa nossa ajuda.


Pois somos todos filhos e filhas dela.

Sem a nossa mãe Terra não temos como existir.

"Um recado dos ancestrais"!


Vamos mudar enquanto há tempo!

sábado, 1 de maio de 2021

Soneto do dia seguinte

Por Paulo Cesar da Silva



Ao findar a prolongada tormenta, as trevas finalmente dissipadas,

Quero retornar inquieto, feito criança, apossar-me de parques e praças,

Ocupar alamedas e vielas, cantar e protestar na mesma pólis fraturada.

Irei expandir os sentidos, reconectar a ternura, relimar os afetos.


Que a natureza seja cúmplice ativa de todos os meu gestos.

Que o planeta respire, que a terra inspire novos mantras de cuidado

Enquanto se aprende que a essência ainda provém de pequeninos frascos.      

Longos pesadelos despertam para a imprescindível urgência da fantasia. 


Vamos conceber um novo dialeto onde as palavras serão como flores, jamais como facas:

Suavemente penetrarão os ouvidos como a delicada harmonia das canções do belo Milton.

A poesia será permitida a qualquer hora do dia, bem como mergulhar pés descalços nos gramados e rios.

Vamos cultivar as esperanças fora dos cativeiros, que limitavam nossa humana capacidade de transcender.

Seremos finalmente curados das intolerâncias, da hipotermia do consumo, do egocentrismo cósmico.

Nos encontraremos, nos reconheceremos passageiros da mesma arca, intrépidos habitantes do mesmo lar.



sexta-feira, 30 de abril de 2021

Encruzilhada, Encruza, em Cruz, na “Terra de Vera Cruz”?

Por Daniel Vila-Nova


Toda segunda nasce do ventre de uma encruzilhada. Para além dos sentidos místicos e espirituais, em toda encruza nasce uma dupla contingência: uma escolha; e uma abnegação.



Em meio ao pandemônio pandêmico que segue a ceifar vidas aos milhares, a decisão por publicar esta coluna tem esse “quê” de achado, mas também do que fica perdido pelos caminhos e bifurcações.

A senda dos calendários nem sempre é muito segura, mas nos traz alguns indicativos. Em outras culturas e tradições linguísticas nacionais, as “brasileiras” Segundas-Feiras são dedicadas ao nosso único satélite natural: a Lua.

Como é fascinante acompanhar as danças diárias desse corpo celeste que tanto desperta o interesse dos viventes, sejam amantes, sejam agricultores, sejam pescadores, sejam poetas… Aliás, preciso me apresentar: sou Daniel Vila-Nova, um cidadão brasileiro que, para fazer jus à expressão cunhada por Joaquim Maria, se constitui enquanto “poeta de palavras”. A cada semana, assim como as 4 fases lunares, o desejo do colunista que vos escreve — querida leitora, querido leitor e “queride” que lê — é o de provocar.

Não existe solução fora do tumulto. Ou seja: não adianta chegarmos a mais uma segunda e seguirmos sentados diante da pedra que chora na encruza.

Por falar em cruzamentos, na cruz, há muito sobre nós. Num outro 26 de abril — o do ano 1500 —, quando tudo o que aqui está foi chamado de “Terra de Vera Cruz”, rezou-se a chamada “primeira missa”. Não foi a primeira do “Brasil”, porque sequer havia acontecido essa “invenção” — na opinião deste humilde autor, quiçá, a mais fascinante das experiências neste reles planetinha.

“O Brasil tem um grande passado pela frente”, nos diz Millôr com uma ousadia mais universal que os famigerados 521 anos do nosso “descobrimento” — talvez, a maior “Fake news” que já vagou por estas bandas… Esse, o mote que esbarraremos a cada segunda. Para falar desta, Segunda (26), impossível não falar da anterior, o 19 de abril — o vulgo “Dia do Índio”.

Os povos indígenas foram os primeiros povos brasileiros (leia-se “povos”, no plural). São — e continuam sendo — o Brasil antes da invenção da “brasilidade”. Torço para que sobrevivam a tudo o que aí está, assim como o Peri, de Caetano.

Nas línguas que circulavam naquelas então recém “batizadas” terras da “verdadeira cruz”, existiam outras crenças, outras culturas, outros nomes… Todos e todas ignoradas. Milhares de Peris e de Iracemas exterminados…

Isso não é novidade desta Segunda (26 de abril de 2021): os genocidas batem à porta de muitas segundas, por aqui, há muito tempo. E o genocídio insiste em continuar na moda. A “indesejada das gentes” sabe que cada segunda é dia de despedidas. Aliás, esta é a única certeza que se leva de cada passagem.

Do passado remoto para o presente e do Hoje de volta ao passado, mais de três séculos depois do “culto”, um pintor “brasileiro” — porque nascido no então “Império do Brazil”, com “z” — retratou a tal missa. O quadro é um verdadeiro “suco de Brasil”, com “s”. E é uma a figura que ilustra a estreia desta coluna. Nela, veja o lugar dos povos brasileiros nativos. Note onde estão os colonizadores. Há toda uma iconografia política que diz mais que todas estas palavras reunidas em torno desta “Cruz” chamada Segunda…

A expressão indígena para aquelas terras invadidas por portugueses era “Pindorama”. O termo pode ser associado a “região das palmeiras”. É exatamente esse o canto que a “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias exalta.

“Minha terra tem mortes…

Onde cantam?

Cantam o quê mesmo?”

Em tempos tão estranhos e mórbidos, a sensação de exílio nos invade a todos. Vou escrever, agora, o porquê escrevo. Escrevo porque, de outro jeito, não faria sentido algum caminhar por aqui. Cada “folha de papel”, cada “pedacinho de Blog” é uma caverna na qual vou deixando as minhas rupestres marcas. É assim que honro as palmeiras e os sabiás que me enchem de esperança, apesar de tanta angústia.

Este homem-da-caverna, aqui, se escreve com hífen de Vila-Nova. Tem prenome do profeta bíblico que, segundo a narrativa, conviveu com leões em calabouços da política.

A cada segunda, um encontro com um novo leão. Uma nova esfinge a nos desafiar: “decifra-me ou te devoro”. A motivação desta caminhada de palavras por encruzilhadas, pelas encruzas da vida, é, portanto, a de dar algum consolo aos pés que seguem furados e sangrando, diante de tantas pedras e armadilhas pelo caminho.

Com um sinal da cruz, peço bênção a quem for de bênção, permissão a quem nos concede energia e iluminação e, sobretudo, paciência. As segundas costumam ser os dias mais odiados da semana. Por tudo que está escrito acima, é exatamente isso que me move.  Pelo amor das luas que movem as segundas, eis as primeiras andanças deste dândi à deriva.


Dândi-à-Deriva* é o pseudônimo de Daniel Vila-Nova. Brasiliense, poeta, jurista e professor, com formação em Direito e em Política. Em 2009, publicou, pela LTR Editora, o livro “Rádios Comunitárias, Serviços Públicos e Cidadania: uma nova ótica constitucional para os serviços públicos de (tele)comunicações no Brasil” — fruto de sua dissertação de Mestrado em Direito, Estado e Constituição, pela Universidade de Brasília (UnB). Em 2017, publicou #PoesiaBinária: #Fr4gm3nt0s, pela Editora Cryativa. Em 2021, defendeu a Tese de Doutorado “Supremologia: o STF nas encruzilhadas da Política & do Direito no Brasil”, pelo Departamento de Ciência Política do Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Federal Fluminense (DCP/ICHF/UFF).

Serpente

Luíza Alves



Ser mente, ser sabedoria, dentro da cabeça estará o guia. O encantamento está além da pele, está no modo que lá se move, e como ele a respeita é muito mais sagrado do que se imagina.

Ele a observa e aprende, pois sua beleza está na sabedoria, que há no silêncio e no respeito mútuo entre dois seres que dividem a mesma terra.

Serpente ser mente, com som do seu corpo conduz a sabedoria de se admirar a caça em silêncio. A mente sorri é os olhos a cumprimentam, com a devida igualdade e com o respeito de ser um guia, traz o conhecimento de não subestimar o povo que aqui já estava.

segunda-feira, 19 de abril de 2021

A grande Árvore e suas sementes

 


Por Ju Kerexu
Ilustração: Mani Ceiba


Nós somos a semente chamada Mulher!

Nós somos a terra, que faz germinar essas sementes sagradas, que alimentam os corpos e o espírito.

Somos as raízes que se mantém firme e forte, mesmo com tantas adversidades, que insistem em corta-las e enfraquece-las.

Somos as fortalezas que mantém de pé todos e tudo!

Somos a vida!

Somos corpos sagrados, quem gerou, gera e vai gerar este mundo!

Somos o ventre sagrado!

Somos todas elas, antecessoras das nossas ancestrais, somos os corpos sagrados que deram início a vida, que fortalece o presente e enraiza o futuro, que nos acalenta com seu sopro de sabedoria e força!

Cunhã Porã

 

Por Papiõn Cristiane Santos
Ilustração: Michele Borges

Quando me vê, me olha, me enxerga, sou desejo ou realidade ?

Meu olhar de gato, onça, águia e até de gente com alma,
que canta, dança aos deuses caapora, curupira, Yara, Yaçi, Guaraci, Tupã.

Seu penteguá eleva a fumaça que segue até a morada de Nhanderu.
Enquanto me vê, me olha, me enxerga quem sou.

Sou a Cunhã Porã que carrega as cores da noite estrelada em seus cabelos,
a voz o som dos pássaros, sou a inocência perdida das primeiras crias chamadas de brasileiros, sou a mãe da miscigenação.

Oh pátria desalmada que nega essas mães violadas, ricas de sabedoria e cultura  que embala silenciosamente até hoje os mistérios de ser Cunhã Porã!

Agora me vês e me enxerga  e não me silencia jamais, pois agora sou eco
que ecoa em todas as direções .


sexta-feira, 9 de abril de 2021

LETRAS LIVRES GERMINAM CONEXÃO

 


Sempre é a hora de rasgas o tédio, a aparência e o ódio
Há tempos, é verdade, que a hora clama com mais firmeza
Há os que impõem, mas há os que dizem não
Os sujeitos do não que vocaciona o sim vivem o paralaxe da conexão proibida
Aqueles que impõem dizem não para a vida
A multidão que vive a imposição diz não para a opressão
Muitos sujeitos que nem se descobriram como tal, não encontram o sal
Muito o que fazer, pois são necessárias ações para o não e para a descoberta do dizer
Já tanto é feito para comer, andar, dançar, cantar, estudar, ter saúde e viver
Parece que não há tempo de suspirar alto pela vida e fazer para a conquista do viver
Mas só parece, só é sentido, é o peso da imposição de cada ditadura que parece não parar de chegar
Mas atenção: cada ditadura nos exige a descoberta daquilo que inunda de sim o não
E muitas ditaduras marcaram em nome dos que se apropriaram e roubaram
Impuseram as desigualdades pela apropriação do comum
Se apropriaram da terra, da natureza, da riqueza que brota para forjar seu Estado
Estado cerzido em ditadura da imposição, crueldade, das mentiras e mortes
E faz parecer que a imposição tem o som em militares ou em mentirosos de plantão
Mas as sujeitas, pessoas, que em cada ditadura diz não, 
Produziram, produzem e produzirão, na conexão da unidade, um grito forte de sim pelo viver
Amar, sonhar, pensar, agir, se descobrir nessa terra que padece da imposição da mentira que cultiva morte e opressão
A verdade está escondida então vamos trazer a fogueira que traz o conhecimento para os sentidos
Os sentidos dos dedos no piano, que branco e preto das teclas parece fazer som
Precisa chegar na inteligência coletiva do martelo nas cordas de onde o som vibra pra valer
É nessa valia do entender, do conhecimento, da solidariedade, da dissonância da libertação
Que é possível abrir estradas para rasgar todas as ditaduras no chão da libertação
A natureza que é nossa, a beleza do tempo natural, aquilo que parece invertido por impostação
Clama sempre pelos sujeitos da libertação e essa é nossa conexão
Colonização, estado novo com tempero do velho, militares empregados dos poderosos do capital
Todo esse mal que força a morte sobre o corpo precisa ser rasgado em um coletivo sopro
Sopro que diz não ao capitalismo no mesmo som que vem o sim do Bem Viver
É isso que vamos ter, isso que tivemos ontem que em 31 de março de 64 é grande marca
Teremos agora também, em pleno século XXI, em conquista abera pela vida 
Que faz a periferia dar um grande abraço com todos os corpos que vivem da venda de trabalho
Eis o abraço da libertação, com tecnologia sadia e inteligência da multidão
E bebe um pouco das letras da liberdade que grita livre em nome da libertação
Vem nessa bebedeira da alegria da sabedoria coletiva germinar conexão



sábado, 3 de abril de 2021


 
se eles vierem pela manhã
encontrarão a cama por fazer
e a tv ligada
a água por ferver
e uma poesia engasgada
se eles vierem pela manha
encontrarão Brecht e Malatesta na estante
e saberão num instante
vendo as camisetas no armário
da minha vida militante
de poeta libertário
se eles vierem pela manhã
me encontrarão dando comida pros gatos
a barba por fazer
a pia cheia de pratos
não terei pra onde correr
nem armas pra me defender
se eles vierem pela manhã
fechando o regime
chutando a porta
não serei o que finge
nada de idéia torta
o papo é reto
sou comunista
poeta
artista
antifascista
se eles vierem pela manhã
ainda assim
outros como eu brotarão