segunda-feira, 8 de novembro de 2021

POEMAS DE CARLOS MARIGHELLA


Rondó da Liberdade 

 

É preciso não ter medo,

é preciso ter a coragem de dizer.

Há os que têm vocação para escravo,

mas há os escravos que revoltam contra a escravidão.

Não ficar de joelhos,

que não é racional renunciar a ser livre.

Mesmo os escravos por vocação

devem ser obrigados a ser livres,

quando as algemas forem quebradas.

É preciso não ter medo,

é preciso ter a coragem de dizer.

O homem deve ser livre…

O amor é que não se detém ante nenhum obstáculo,

e pode mesmo existir até quando não se é livre.

E no entanto ele é em si mesmo

a expressão mais elevada do que houver de mais livre

em todas as gamas do humano sentimento.

É preciso não ter medo,

é preciso ter a coragem de dizer.


Canto para Atabaque

Ei bum!

Qui bum-rum!

Qui bum-rum!

Bum! Bumba!

Ei lu!

Qui lu-lu!

Qui lu-lu!

Lumumba!

Ei Brasil!

Ei bumba meu-boi!

“Mansu, manseba,

traz a navalheta

pra fazer a barba

deste maganeta.”

Lá vem beberrão,

lá vem Bastião,

tocando bexiga

em tudo que é gente.

O engenheiro medindo,

empata-samba empatando,

cavalo-marinho

dançando, dançando.

O boi requebrando,

o boi ‘stá morrendo,

o boi levantando,,,

Ei Brasil-africano!

Minha avó era nega haussá,

ela veio foi da África,

num navio negreiro.

Meu pai veio foi da Itália,

operário imigrante.

O Brasil é mestiço,

mistura de índio, de negro, de branco.

Bum! Qui bum-rum! Qui bum-rum! Bum-bum!

Quem fez o Brasil

foi trabalho de negro,

de escravo, de escrava,

com banzo, sem banzo,

mas lá na senzala,

o filão do Brasil

veio de lá foi da África.

Ei bum!

Qui bum-rum!

Qui bum-rum!

Bum! Bumba!

Ei lu!

Qui lu-lu!

Qui lu-lu!

Lumumba!

 

Canto da Terra

 

A terra tem tudo

e plantando é que dá.

E plantaram e plantaram

ou já estava plantado.

A floresta amazônica,

o rio e os peixes

e o balacubau.

A caatinga existia

com a braúna,

o mandacaru

e o gravatá cariango.

As coxilhas do Sul,

o maciço do Atlântico,

a Serra do Mar,

os pinheiros erguidos,

o rio Amazonas,

o rio São Francisco,

o rio Paraná…

Canaviais assobiando,

cortina verde estendida

sobre imensa extensão.

E plantaram café

e cacau e borracha…

E plantaram erva-mate…

Com o escravo e o imigrante

tudo se fez.

Comidas meu santo,

a mulata, a morena…

e até a loura surgiu.

A índia já havia,

a gringa veio depois.

Quem atrapalhou

foi gente de fora

que não trabalhou.

Eu canto a terra…

Todos sabem que outra

mais garrida não há…

“Teus risonhos, lindos campos têm mais flores”…

Bom! Lírios já houve,

mas agora é que não.

Eu canto a terra,

eu canto o povo…

Cantam os poetas

e cantando vão…

 

Liberdade

Não ficarei tão só no campo da arte,

e,  ânimo firme, sobranceiro e forte,

tudo farei por ti para exaltar-te,

serenamente, alheio à própria sorte.

Para que eu possa um dia contemplar-te

dominadora, em férvido transporte,

direi que és bela e pura em toda parte,

por maior risco em que essa audácia importe.

Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma,

que não exista força humana alguma

que esta paixão embriagadora dome.

E que eu por ti, se torturado for,

possa feliz, indiferente à dor,

morrer sorrindo a murmurar teu nome.


A Alegria do Povo

Uma grande jogada

pela ponta direita,

o balão de couro

como que preso no pé.

Um drible impossível…

Garrincha sai por uma lado,

e o adversário se estatela no chão.

Gargalhada geral,

o Maracanã estremece…

Lá vai o ponta seguindo,

os holofotes varrendo de luz o gramado,

o balão branco rolando,

seguro nos pés do endiabrado atacante.

Voa Garrincha,

invade a área contrária,

indo até à linha de fundo

para cruzar…

E as redes balançam,

no delírio do gol.

Garrincha! Garrincha!

A alegria do povo,

no balé estonteante

do futebol brasileiro.

 

Capoeira

Capoeira quem te mandou,

capoeira, foi teu padrinho.

O berimbau retinindo

na corda retesa,

cadência marcada

da ginga do jogo.

Zum, zum, zum,

capoeira mata um.

A perna direita

lançada pra frente,

o peso do corpo equilibrado na esquerda,

os braços jogando

de um lado pro outro…

Capoeira quem te ensinou?

De repente uma queda,

o capoeira na terra,

o aú,

de cabeça pra baixo,

as pernas no ar,

a rasteira varrendo

como foice no chão,

o corta-capim, o rabo-de-arraia,

e o inimigo caindo

de supetão,

ao puxavante

da baianada.

Luta africana

que o mestiço encampou,

que os guerreiros da mata,

quilombos, palmares,

souberam jogar.

Que o angolano nos trouxe,

que o mestre Pastinha nos soube ensinar.

Coreografia. Jongo do povo.

Zum, zum, zum

capoeira mata um.

 

O país de uma nota só

Não pretendo nada,

nem flores, louvores, triunfos.

nada de nada.

Somente um protesto,

uma brecha no muro,

e fazer ecoar,

com voz surda que seja,

e sem outro valor,

o que se esconde no peito,

no fundo da alma

de milhões de sufocados.

Algo por onde possa filtrar o pensamento,

a ideia que puseram no cárcere.

A passagem subiu,

o leite acabou,

a criança morreu,

a carne sumiu,

o IPM prendeu,

o DOPS torturou,

o deputado cedeu,

a linha dura vetou,

a censura proibiu,

o governo entregou,

o desemprego cresceu,

a carestia aumentou,

o Nordeste encolheu,

o país resvalou.

Tudo dó,

tudo dó,

tudo dó…

E em todo o país

repercute o tom

de uma nota só…

de uma nota só…

 

A Vaga

De manso surge a vaga.

Vem de leve de uma ruga do mar que o vento ensaia

impelir e rolar. E rola e em breve

numa auréola de espumas cinge a praia.

E é majestosa e bela quer se eleve

expandindo-se toda ou se contraia,

erga-se em cristas brancas como a neve

ou rebramando escachoante caia.

Tal como a vaga é o meu amor por ti

férvido, impetuoso — o que eu senti

no coração com mais ardor vibrar.

Amor que de meus versos dentre a espuma

borbulha e se agiganta e se avoluma

como a vaga rolando sobre o mar.

 

Urubu

Pairando pelo espaço onde quer que pressinta

carniça, podridão, matéria decomposta

essa ave original de cor preta retinta

o cheiro da imundice alegremente arrosta.

Vem descendo depois. Já não é uma pinta

escura na amplidão do firmamento exposta.

Vem descendo inda mais, cada vez mais distinta,

até que no terreno o corpo feio encosta.

Desde então principia a ceia horripilante

e belisca a esterqueira e grunhe a cada instante,

sacudindo-se toda, inquieta e assustadiça

Assim como o urubu há no alto muita gente

poderosa a fartar que, entanto, moralmente

só consegue viver à custa de carniça

 

Confraternização

Braços caídos

Não mais as mãos nervosas das tecelãs

tocando os

teares,

pondo emendas no fio

não mais o matraquear dos teares

batendo

num barulho monótono, ensurdecedor

Apenas braços caídos,

As operárias pensando nos filhos

com fome

Depois vieram os soldados,

Fuzis embalados,

Defender a propriedade do dono da

fábrica

Mas também tinham filhos,

Mães, noivas, irmãs

A fome era a mesma nos seus lares

também

E as tecelãs os saudaram chamando-os de irmãos

Agora na fábrica há braços erguidos

Aclamando

E há mãos se apertando

 

Balada à descritiva

Morra, meu Deus, a Descritiva,

esta matéria sem valor,

que, à tarde, é coisa intempestiva

assunto ouvir tão maçador.

Na sala B, fornalha viva,

que mal me faz estar presente!

Concede, ó Deus, que a Descritiva

um dia morra de repente.

Que disciplina tão nociva!

Como na sala faz calor!

Calor gostoso que incentiva

a um sono bom, reparador.

Morra, Jesus, a Descritiva

acompanhada da tangente,

da Geometria Projetiva

e o mais que amola n’aula a gente.

O sala B, a perspectiva

do teu contorno causa horror,

queima, Senhor, a Descritiva,

joga-a no lixo por favor.

Horas de dor, tarde aflitiva,

a ver traçar linhas de frente,

cousa que a breve trecho aviva

em mim o tédio e a raiva ardente.

Morra de vez a Descritiva,

que a sua perda ninguém sente.

Mas se a “bichona” ficar viva,

morra eu então, subitamente.

 

Fernando de Noronha

Fernando de Noronha. Arquipélago. Ilha.

Plantada no mar

como um pedaço de carvão boiando nas águas do Atlântico.

O Pico se elevando como o Pão de Açúcar,

o Espinhaço do Cavalo,

o Morro dos Remédios com o Forte no alto,

e na Praça dos Remédios a igrejinha caiada.

A vegetação rastejante, quase à flor do terreno,

o mata-pasto e a burra-leiteira,

de cujos talos quebrados

goteja um leite cáustico, violento,

que queima os olhos e provoca cegueira.

E o cabo-de-raposa e as cactáceas

que infestam o solo com os espinhos remosos.

E lá para o Sul, para a Sapata espalmada,

a pequena floresta de árvores linheiras,

sugadas de parasitas, os cipós pendurados,

com as pontas tocando no chão escaldante.

E os mulungus e as bananeiras de folhas ao vento,

subindo as encostas escarpadas do Pico.

Os cajueiros carregados de frutos vermelhos,

mamoeiros, pinhais e coqueiros

de palmas verdes tremulando sobre o branco das praias.

A praia do Cachorro, que o mar esburaca,

carregando a areia para a praia vizinha,

Santo Antônio chamada,

onde as balsas aportam para carga e descarga.

Fernando de Noronha,

com seus peixes e pássaros.

A guarajuba, a cioba, o cangulo,

a venenosa urubaiana e a albacora do alto-mar.

O mumbebo que mergulha para fisgar a sardinda,

e o alcatraz que a arrebata às bicadas ao mumbebo.

Ilha sem rios, com águas amargas

arrancadas às entranhas da terra

em poços profundos e cacimbas famosas

– Cacimba de Mulungu, Cacimba do Padre.

Fernando de Noronha com suas lendas ingênuas

– a lenda da Alamoa,

os amores proibidos no Açude do Gato,

as estórias dos bigodetes,

as vinganças dos presos traídos no amor,

as mãos dos sedutores amputadas a golpes de foice.

As estórias de fugas,

fugitivos tragados por vorazes tubarões…

E os prisioneiros seminus,

sob o sol abrasante,

carregando o munício

vergados ao peso de caixas enormes.

 

O perfume

Para cada mulher existe sempre um perfume

que agrada ao seu gosto

ou ao desejo que a inspira,

e que lhe é revelado pelo dom do instinto.

Cada mulher traz em si,

entranhado em seu corpo,

um perfume.

A cada espécie de amor

um perfume é mister,

seja amor puro,

infiel,

sacrossanto,

carnal.

Há uma busca eterna à mulher …

E quem sabe essa busca

se resume

na procura de um quê,

algo estranho, insondável,

quem sabe um perfume.

 

Fontes: livroecafe.com; xapuri.info; geledes.org.br; revistaprosaversoearte.com


quarta-feira, 6 de outubro de 2021

O Caminhar ao Sol

De Ju kerexu


Ao caminhar, cores se entrelaçam...

Cores se entrelaçam aos cantos...

Cantos se entrelaçam as pisadas...

Pisadas se entrelaçam a ancestralidade...

Ancestralidade se entrelaça aos corpos trajados de pena e cocar...

Trajados com adornos na mais pura essência, iluminando o caminhar de pés firmes ao chão...

Firmeza vindo acompanhar o pulsar do útero, o útero gerador...

Gerando luz, força e gratidão...

O caminhar ao Sol que ilumina os corpos já tão sofridos, que mesmo com a dor do passado, o presente se forma na força do ventre, que carrega toda a verdadeira ancestralidade...

O caminhar ao Sol ilumina as silhuetas do ser mulher, trajado na mais pura verdade, a verdade nas cores resplandecentes do jenipapo, que preteia com o carvão e o vermelho sangue do urucum...

Cores ao Sol iluminam o vislumbrar de um futuro colorido, trajado com a coragem, força e esperança do ser mulher...

Mulheres indígenas, mulheres originárias!

terça-feira, 3 de agosto de 2021

Olhares da alma

Ilustração clovis Lima

 
Por Ju Kerexu


                  Olhares da alma

Os olhares que carregamos dizem muito, dizem o que somos...


O olhar é por onde conseguimos enxergar o sentido mais sublime do amor...


O olhar não mente, quando os olhos brilham, porque é o mais puro e verdadeiro...


A alma, o espírito, falam por olhares! Muitas das vezes não precisamos trocar palavras e sim o mais simples olhar diz muito, diz a verdade.


O amor do auto-olhar é isso também, não deixe de lembrar de se olhar demostrar o amor por ti...


Sinta-te, ame-te, admire-te...


Ame com olhares, admire com olhares, acolha com olhares...


Amizade, amor, admiração, emoção, também podemos compartilhar com olhares...


O momento que estamos vivendo estamos carentes de toques e abraços, mas não esqueçamos que ainda podemos compartilhar tudo isso através dos nossos olhares...


O olhar é o ascendente da ancestralidade, espiritualidade... O desaguar num mar de infinito amor, compreensão, acolhimento, reconhecimento...


O olhar é o caminho da espiritualidade...


Não deixemos de olhar pelas janelas da alma!


domingo, 4 de julho de 2021

Bandido

 Por Val Nunes


Essa é só pra quem é bandido,

Quem anda de magrela

E a nota fiscal é exigida

Só por cautela.


Quem é abordado no supermercado

Porque está de mochila.


Pra quem é confundido,

Quem faz um movimento suspeito,

Uma pele suspeita,

Um nariz suspeito.

"Quem tem um pezinho lá".


É só pra quem é bandido.


Pra quem tá correndo e encontra uma bala,

Quem tá parado e encontra uma bala,

Quem tá em casa e... Putz...

Cujas balas só se perdem em caminhos de corpos pretos.


Quem tá nos guetos,

Nas favelas,

Nas vielas,

Nos morros sem o básico do básico para viver:


Saúde,

Escola,

Lazer.


Só pra bandido

Que anda em meio ao esgoto a céu aberto.


Aaaaaah, o céu!!!!

Quando eu penso que é de lá que me vem o socorro,

O socorro vem de Brasília

Em meio à pandemia.

Que patifaria.


Help.

O Brasil tá lascado só pra "bandido pardo",

Preto e vermelho.

Cidadão de bem veste verde e amarelo.

Yello.

Oooo my god!!!!


Como cê vai virar Dotô com a barriga roncando,

Com o barraco caindo,

Com as pedras rolando morro abaixo,

Atropelando tudo que sua mãe construiu:

A beliche,

O “réqui”,

O guarda roupas com roupas doadas na enchente passada.


Essa é só pra quem é bandido,

Quem tá cansado,

Quem tá exausto,

Quem tá perdido.


Tentando se encontrar numa fresta de luz que for,

Se agarrando na linha da pipa pra num fazer merda,

Procurando um pedacinho do sol que nasce pra todos

Mesmo que for bem pequenino.

Que musa o mundo.

Que muda tudo.

Que traga o fim da desigualdade social,

O fim das mortes pretas,

O fim da corrupção na política brasileira,


Pra quem pensa

Como colher esperança

Num país que planta ódio.


Essa é só pra bandido!